Skio: entre a beleza perfeita e o confinamento gráfico

Inspirado pelo Bauhaus, pela abstração geométrica, pelo surrealismo e pelos corpos femininos estilizados, Skio cria uma arte da ambiguidade. Entre fascinação e crítica, harmonia gráfica e inquietação existencial, o artista confunde nosso olhar.

O trabalho de Skio, cujo nome verdadeiro é Nicolas Scauri, é uma reflexão comovente sobre a nossa época. Nesse jogo sutil entre a figuração realista e o confinamento geométrico, Skio retrata uma sociedade fascinada pela perfeição — a do Instagram, do design, da imagem polida, onde o ser humano se esvai por trás de uma estética impecável. Os rostos e corpos que ele pinta, muitas vezes femininos, são belos, quase divinos, mas envoltos em silêncio, como se tivessem sido sacrificados no altar da perfeição. Confinados em formas rígidas, submetidos a composições frias e controladas, essas figuras se tornam símbolos de uma sociedade que esquece o essencial. Nessa tensão entre ideal e realidade nasce uma estética rara, poderosa, eminentemente contemporânea que nos faz questionar.

Tu vens do mundo do
grafite…
Sim, do grafite puro e duro. Comecei aos 12 anos, quando meus pais se separaram. Deixado por minha conta, encontrei as latas de tinta do meu pai e comecei a fazer grafites, sem saber que era ilegal. O proibido me atraía, assim como tudo que tinha a ver com a cultura underground. Mais tarde, em Toulon, durante meus estudos de design, conheci um grafiteiro. No começo, eu filmava as sessões, depois entrei no meio, comecei a fazer lettering, participei das primeiras jams, trabalhei com personagens de b-boy e participei de vários festivais, como o Meeting of Styles em Lyon. De volta a Nice, com a galera do B2C, fizemos grandes murais só por diversão. E aí comecei a ganhar um dinheirinho decorando as portas de ferro das lojas de Nice.

Como você passou a adotar uma abordagem mais estruturada?
Depois dos estudos, fui para Paris trabalhar como designer gráfico para a gravadora de rap Néochrome. Logo descobri os festivais parisienses, como o Kosmopolite em Bagnolet, e um público curioso e aberto, bem diferente do clima do Sul. Os artistas saíam dos códigos clássicos do grafite: colagem, apropriação… De Belleville a Pyrénées, os pontos eram verdadeiros laboratórios a céu aberto. Na época, eu era contra as galerias. Então, lancei exposições urbanas, no estilo de happenings. Na primeira vez, éramos dez – incluindo Rero, Kouka e alguns outros –, depois vinte, depois cem. Eu fazia reconhecimento em Paris, escolhia locais centrais – o Marais, a Bastilha… Até que uma pessoa da Federação Francesa de Tênis me contatou para um evento em Bercy. Foi assim que nasceu a Riofluo há 17 anos, a primeira associação dedicada à criação de eventos urbanos, seguida pela EasyAap para ajudar os artistas a responder às chamadas para projetos. Sempre quis criar ferramentas úteis e concretas para o meu meio.

Durante todos esses anos, você tinha alguma atividade artística pessoal?
Sim, mas sem um objetivo concreto. Eu pintava com os amigos na rua e, ao mesmo tempo, eles participavam dos meus eventos. Aliás, foi em um dos meus projetos que o Hopare conheceu sua primeira galeria. Mas o rótulo de “chefe” que me colocaram me deixou um pouco desanimado. Não era isso que eu buscava. Depois, durante o confinamento, tudo parou. Aproveitei para me reorientar, pintar, postar no Instagram e comecei a vender pequenas telas. Galerias entraram em contato comigo depois disso.

Você deu um nome a esse estilo…
Eu o chamei de Human in the City. Mas esse nome logo se mostrou limitador. Agora, deixo que ele viva sem rótulos.

Como surgiu esse estilo, estruturado, fragmentado, figurativo e abstrato?
Acho que a criação é sempre uma reação, uma vontade de romper com o que já existia. Antes, eu fazia ilustração, aquelas pinturas murais supercarregadas, cheias de arabescos. Um dia, durante um festival, o Sitou e eu ficamos sem saber o que fazer em um mural: como juntar esses elementos? E lembrei-me dos meus estudos de design, da Bauhaus, das formas simples e equilibradas; por que não usar isso? Tentei… e me apaixonei na hora. O confinamento reforçou essa mudança: explorei a abstração geométrica e depois o realismo figurativo. O encontro entre os dois fez sentido. A abstração me lembrava a arquitetura moderna de Paris, de Saint-Ouen, onde moro, com suas linhas rígidas, seus blocos, seu ambiente muito padronizado. Então, me perguntei como integrar um corpo nessa abstração. Introduzi, então, corpos inspirados em Jean-Paul Goude, uma mistura de abstração fria e corpos estilizados.

Onde você se encaixa nessa relação entre figurativismo, abstração e surrealismo?
Sinceramente, não sei bem. O que me guia é a necessidade de ir direto ao essencial. O Bauhaus me inspira pela sua radicalidade: a forma segue a função. Uma ideia simples, mas poderosa e cheia de sentido. Já o grafite costuma ser exagerado: uma acumulação de formas, cores, detalhes… Eu quis quebrar para reconstruir: buscar um minimalismo preciso, com composições equilibradas e uma paleta restrita, mas bem estudada.

Tu insistes na importância da mão, do gesto…
Gosto da técnica, do verdadeiro savoir-faire. Coloco até chips NFC em cada uma das minhas telas para que todos possam ver o trabalho em andamento no celular. Num mundo que acredita que tudo se faz sem esforço graças às ferramentas digitais e à Inteligência Artificial, quero mostrar que o que se vê é fruto de um trabalho manual paciente e preciso.

Por que retratas principalmente mulheres no teu trabalho?
Já pintei alguns homens, mas volto sempre aos retratos femininos. Tenho muito prazer em selecionar, filtrar e retrabalhar as fotos que tiro ou das quais tenho os direitos. Não é uma pose, é uma escolha estética e emocional. Há uma suavidade, uma sensibilidade visual que combina com o que procuro expressar. O que me interessa é o contraste: desde o início, brinquei com rostos em preto e branco sobre fundos coloridos. Depois, levei o realismo ainda mais longe com, de um lado, formas muito rígidas e, do outro, um corpo orgânico; curvas femininas cercadas por uma geometria rígida. Como uma equação visual a ser resolvida, desse desequilíbrio às vezes nasce a harmonia, onde elementos que não deveriam combinar acabam encontrando seu equilíbrio.

Qual é o papel da cor na tua obra?
A cor é um veículo de emoção e estrutura, mas, mais uma vez, o que me guia é o jogo de contrastes que cria a harmonia. Trabalho com gamas cromáticas bastante simples, nunca mais do que o necessário: um tom sobre tom de azul que contrastam com um laranja muito vivo, por exemplo. Hoje, cada tela tem sua própria paleta, em sintonia com as formas, o corpo, o clima, escolhida para servir à composição e guiar o olhar.

O que você quer provocar ao ocultar sistematicamente o olhar dos seus personagens?
Nas nossas cidades, vivemos uns ao lado dos outros sem nos conhecermos de verdade. Ora, o olhar é a primeira chave para entender uma pessoa. Ao ocultá-lo, eu retiro o essencial, a identidade dela, e isso chama a atenção, incomoda. É isso que eu busco: provocar uma reação, forçar a reflexão.

Em algumas das tuas obras, percebe-se um trabalho quase clássico, principalmente nos drapeados. Podes nos contar mais sobre isso?
Adoro me desafiar, aprender novas técnicas. Assim, exploro os efeitos – cromo, drapeados, metal… – ou a marchetaria com a Valentine Allegrini. Por criar telas quase fotográficas, tão lisas quanto uma tela de computador, sinto a necessidade de voltar a um material real, vivo, que se possa tocar. Aí, mais uma vez, encontramos o espírito da Bauhaus: a união entre arte, design e artesanato.

Como você trabalha?
Tento recriar as sensações da rua. Para os fundos e as formas geométricas, uso o spray. Para os detalhes mais finos – rostos, degradês, efeitos –, uso o aerógrafo, um mini-spray de precisão pelo qual me apaixonei. O aerógrafo traz uma suavidade que eu complemento com o pincel para dar mais textura e um toque mais cru, mais vivo.

Como você lida com as diferenças de escala entre parede e tela?
Na tela, desenvolvi uma técnica bem precisa: consigo ir bem longe no realismo, nos degradês, nos detalhes. Na parede, não tenho tempo para tanto requinte. Mas, paradoxalmente, as formas geométricas na parede costumam ser mais abundantes, mais diversificadas, porque é preciso ocupar o espaço, captar o olhar, criar movimento. É o que chamamos de “flow” no grafite. Um mural é quase uma coreografia visual: o olhar precisa passear, saltar de um elemento para outro.

Que mensagem(ns) você quer passar?
São várias, e elas vão mudando com o tempo. Falo do ser humano no espaço urbano, absorvido pelo mundo digital. Para onde foi o ser humano? No Instagram, tudo é liso, perfeito; como os rostos que eu pinto, mas é uma perfeição um pouco fria que beira a deificação, tipo Madona com auréola. Ao mesmo tempo, transformo essas figuras em objetos; eu as aprisiono em formas, as restrinjo, brinco com essa tensão entre a beleza perfeita e o confinamento gráfico. A personagem domina a composição ou é prisioneira? Cabe a cada um responder. O que resta, no fundo, é essa tensão entre o ideal que veneramos e a realidade mais rígida na qual tentamos sobreviver.

Qual é o próximo passo na tua pesquisa plástica?
Hoje, meu trabalho está muito polido, muito controlado. Sei que preciso desconstruir o que construí. Sinto vontade de sujar minhas telas, de injetar nelas um pouco de desordem, de vandalismo controlado. Porque a perfeição, depois de um tempo, acaba cansando. O que nos toca é a imperfeição, o que vai além, o que sai dos trilhos. Por isso, busco o acidente, mas o acidente controlado, aquele pequeno imprevisto que dá charme, vida, para abrir um novo caminho.

Quais são os teus planos?
Tenho uma exposição em outubro na Pretty Portal Gallery, em Düsseldorf, na Alemanha, alguns projetos de pintura de parede previstos até o final do ano e um trabalho de pesquisa no estúdio. Estou precisando disso.

A não perder:
Pretty Portal Gallery
,
outubro de 2025
Brunnenstraße 12, 40223 Düsseldorf, Alemanha
De terça a sexta-feira, das 14h às 19h
prettyportal.de/fr

Skio: skio.fr
Instagram: @skio1

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