Kaldea: histórias cheias de significado

Com “Identité”, sua exposição individual em Paris, Kaldea oferece uma experiência a ser vivida. Cada espaço, cada série, faz parte de uma narrativa sensível onde os temas se respondem e se encadeiam.

Nesta exposição, nada é imutável: nem as figuras, nem as narrativas, nem mesmo as categorias às quais parecem pertencer. O imaginário japonês – tanto mitológico quanto popular –, reinterpretado por Kaldea, funciona assim como uma matriz flexível por meio de uma linguagem visual capaz de questionar questões universais: a identidade, a transformação, a sobrevivência dos corpos e o que define nossa humanidade.

A tua exposição foi concebida como um percurso narrativo. Por que quiseste que esse projeto fosse vivido como uma travessia, e não simplesmente como uma exposição de obras?
Porque o local impõe sua própria lógica: um espaço não linear que se atravessa e que é preciso “habitar” e “vestir”. Uma simples exposição não faria sentido. Esses 200 m² em forma de U me obrigaram a imaginar um percurso onde vários temas dialogam entre si. Naturalmente, tive vontade de criar universos narrativos, oníricos e imersivos, algo que adoro particularmente.

Por que escolheu que a exposição se articule em torno de três grandes eixos, nomeadamente Fragilidade e Resiliência?
Fragilidade e Resiliência são temas universais com os quais venho trabalhando há muito tempo. Ao nascer, estamos livres de qualquer “ferida”. Depois, o tempo faz o seu trabalho: a vida imprime suas alegrias e suas dores tanto na mente quanto no corpo. As “Fragile Furry” fazem parte dessa reflexão. Elas são uma reinterpretação do kintsugi, essa arte japonesa que repara as rachaduras da porcelana com pó de ouro, não para escondê-las, mas para destacá-las. Elas representam o que somos como seres humanos: seres marcados pela vida, ao mesmo tempo frágeis, fortes e resilientes.

E quanto à Mitologia e Cultura Pop?
Mitologia e Cultura Pop remetem ao Japão que conhecemos. Por um lado, há o Japão mitológico – os samurais, as gueixas, as kitsune, os oni, certos deuses e deusas –, um imaginário muito presente assim que a gente se interessa por essa cultura. Por outro lado, há a cultura pop, por meio da qual muitas pessoas descobriram o Japão, principalmente através dos mangás e das séries de animação japonesas. Gosto da ideia de trabalhar em torno dessa dupla herança, porque muitas vezes é por meio dessa cultura popular que a gente acaba descobrindo a mitologia.

Esses temas parecem também fazer eco a algo mais pessoal. Que papel a tua própria experiência de vida desempenha no teu trabalho?
Essas temáticas estão, de certa forma, ligadas à minha própria história. Primeiro, os “Fragile Furry”, porque, como para cada um de nós, a vida me traz tantas alegrias quanto tristezas. Já a hibridização está ligada ao meu passado de geek e ao fato de que a tecnologia ocupa um lugar cada vez mais importante no nosso dia a dia. Há vinte ou trinta anos, as relações eram muito mais orgânicas. Hoje, elas são amplamente “digitais”, especialmente com a chegada da inteligência artificial generativa, da realidade virtual… É essa mudança que tento questionar.

Você invoca tanto os Yokai quanto as Kitsune, o Godzilla ou a Hello Kitty. Como é que se passa de um imaginário coletivo japonês para uma linguagem plástica pessoal sem cair no folclore?
Admito que não é fácil: é fácil cair na facilidade, principalmente diante de figuras tão reconhecíveis. Eu me esforcei bastante para encontrar ideias. No caso da cultura pop, acaba sendo bem simples. A mitologia, por outro lado, exige mais trabalho: a figura precisa manter seu caráter mitológico, mas sem cair em uma representação muito tradicional. Então eu leio bastante, vejo muitas gravuras japonesas… Procuro principalmente misturar os gêneros para evitar qualquer linearidade. Há alguns anos, também tento variar meu estilo, alternando entre figuras femininas, animais e híbridas. Por exemplo, a obra “Ce qui tient ensemble” é uma reinterpretação de um daruma tradicional – uma estatueta japonesa que dá sorte. Aberta ao meio com borboletas dentro, ela expressa a ideia de que, apesar de tudo o que possa acontecer, a gente sempre está aqui. Esse trabalho é ao mesmo tempo um exercício artístico e mental.

A série Mecha parece ser o ponto alto dessa trajetória…
O Mecha é um símbolo forte da cultura japonesa contemporânea. Esses robôs, que me lembram os samurais e suas impressionantes armaduras, não são mais apenas ficção. Eles invadem nossa realidade e talvez desenhem o futuro do ser humano, como os exoesqueletos criados para carregar cargas pesadas. Essas estruturas robóticas nos permitem ultrapassar nossos limites e até mesmo desafiar a mortalidade. O que me interessa é a ambivalência dessa evolução. Por um lado, ela abre caminho para possibilidades extraordinárias. Por outro, ela nos afasta aos poucos do que define nossa humanidade: o corpo orgânico, a sensorialidade, a fragilidade. O Mecha cristaliza essa tensão entre a fascinação pelo progresso e o risco de perder nossa essência humana.

Nessa exposição, como você faz a conexão entre esses temas?
Acho que a conexão vai acontecer naturalmente ao longo do percurso proposto – “Fragile Furry”, depois retratos híbridos, seguidos pela Cultura Pop e depois pela Mitologia… – mas também pela cor: tons pastéis para os “Fragile Furry”; azuis, violetas e rosas para os retratos híbridos; tons vibrantes para a Cultura Pop; nuances mais naturais para a Mitologia…

Parece que esse projeto é um dos mais bem-sucedidos da tua trajetória. O que você está se permitindo fazer aqui que nunca tinha se permitido antes?
Variar os temas por meio de cinco linhas temáticas agrupadas em três grandes eixos, e explorar cada um deles a fundo. Um verdadeiro desafio que me faz passar por muitas emoções durante a intensa fase de criação, que, espero, se refletirão na exposição. Haverá também algumas surpresas, incluindo uma em uma sala secreta no porão do Espace Cinko…

A não perder
: «Identidade»

De 11 a 18 de abril de 2026
Espace Cinko
12-18, Passage Choiseul 75002 Paris
Galeria Roussard: frenchartcollection.com
Instagram: @galerieroussard

Kaldea: @kaldea

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