Festival de Murais de Chilliwack: quando a arte redesenha a cidade

Em Chilliwack, a arte urbana transforma a cidade em uma galeria a céu aberto e conta uma história coletiva por meio de mais de cinquenta murais permanentes.

A cerca de cem quilĂŽmetros a leste de Vancouver, Chilliwack se estende no coração do Vale do Fraser, nas terras ancestrais da Primeira Nação StĂł:lƍ. A cidade, cercada por montanhas majestosas, rios largos e vales fĂ©rteis, nĂŁo se contenta mais em ser apenas um destino natural. Desde 2018, de fato, seu centro histĂłrico se transformou em um espaço de experimentação artĂ­stica inĂ©dito. Todos os anos, sob a liderança de sua fundadora, diretora artĂ­stica e curadora Amber Price, o Chilliwack Mural Festival apresenta uma constelação de murais monumentais. Mais de cinquenta obras permanentes, assinadas por artistas locais, nacionais e internacionais, adornam suas fachadas, estabelecendo um diĂĄlogo duradouro entre arquitetura, memĂłria local e as linguagens contemporĂąneas da arte urbana.

Como surgiu o Chilliwack Mural Festival?
Tudo começou com uma paixĂŁo pela arte e pela arquitetura, alimentada ao longo das minhas viagens. Como proprietĂĄria de imĂłveis, eu queria que essa paixĂŁo contagiasse minha cidade, primeiro com pinturas nas paredes das minhas livrarias. Mas logo ficaram sem paredes disponĂ­veis. Mavik, um artista que veio pintar em um dos meus prĂ©dios, sugeriu entĂŁo a ideia de um festival. Alguns vĂ­deos do Berlin Mural Festival e minha visita ao Nelson International Mural Festival me convenceram a trazer essa energia para Chilliwack. A primeira edição foi um aprendizado intenso. Mas minha experiĂȘncia como empresĂĄria me preparou para lidar com as complexidades das formalidades administrativas e da gestĂŁo financeira. Investi meu prĂłprio dinheiro, convenci amigos e empresĂĄrios a se juntarem Ă  aventura e fiz uma parceria logĂ­stica com a Cooper Equipment Rentals para as plataformas elevatĂłrias.

Qual Ă© a missĂŁo do festival?
Transformar o centro da cidade por meio de arte pĂșblica gratuita, acessĂ­vel e de qualidade. O objetivo era ambicioso: chegar a 40 murais. A chegada de um grande projeto imobiliĂĄrio nos levou a ir alĂ©m para que o centro da cidade mantivesse sua atratividade. Os murais se impuseram como a melhor maneira de conseguir isso e desencadearam uma dinĂąmica coletiva para limpar e recuperar espaços atĂ© entĂŁo negligenciados. A equipe, que no inĂ­cio era formada por mim e pela minha amiga fotĂłgrafa Claudia Wyler, conta hoje com mais de cinquenta membros e voluntĂĄrios. HĂĄ trĂȘs anos, unimos forças com o Chilliwack Arts Council, o que nos abriu acesso a subsĂ­dios. No mesmo ano, Lise Oakley se juntou ao festival como diretora-geral – eu a convenci tomando uma cerveja [risos]. Desde entĂŁo, suas competĂȘncias, seu senso de organização e sua inclinação para as artes e a cultura contribuem para o sucesso do festival.

As primeiras ediçÔes foram bem recebidas pelos moradores?
Os primeiros murais despertaram o entusiasmo do pĂșblico, mas tambĂ©m uma certa desconfiança por parte da prefeitura. A sorte sorriu para nĂłs logo no primeiro ano, pois Kevin Ledo, mestre canadense do retrato, criou um mural monumental, o que deu ao festival uma legitimidade imediata e convenceu a comunidade. Ver Chilliwack, uma cidade historicamente conservadora, abrindo-se aos poucos para a arte urbana e testemunhar esse despertar coletivo continua sendo um privilĂ©gio raro.

Como o festival envolve a comunidade?
Ao longo do ano, trabalhamos com o distrito escolar para que os jovens percebam que a criação Ă© uma força transformadora e entendam que tĂȘm o poder de transformar Chilliwack num lugar agradĂĄvel para se viver. VĂĄrios guias acompanham grupos de todas as idades em visitas privadas, e tambĂ©m oferecemos passeios gratuitos antes e durante o festival. Todo ano, um artista coordena um mural coletivo no estilo “pintura por nĂșmeros”, no qual os moradores participam com entusiasmo. Nossas paredes de treino com tinta spray tambĂ©m fazem muito sucesso. O festival se consolidou assim como um grande destaque da vida cultural: dança, mĂșsica, pintura ao vivo, murais, gastronomia.

Quais sĂŁo os grandes desafios que vocĂȘ precisa enfrentar todos os anos?
Desde as primeiras ediçÔes, coloquei a diversidade e a qualidade no centro da nossa abordagem curatorial. A visĂŁo do festival sempre foi clara: reunir artistas locais, regionais, nacionais e internacionais. Essa diversidade permite elevar o nĂ­vel e ampliar o leque de expressĂ”es artĂ­sticas em Chilliwack. A esse desafio soma-se a busca por financiamento. SubsĂ­dios, parcerias, patrocĂ­nios: a busca Ă© constante em um mundo onde a criação ainda Ă©, com muita frequĂȘncia, subvalorizada.

Quantos murais jĂĄ foram pintados? JĂĄ foram
pintados mais de cinquenta murais, concentrados no centro da cidade, embora este ano tenhamos decidido pintar alguns fora dessa årea. Nosso objetivo é criar um percurso a pé gratuito, acessível 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Como vocĂȘ consegue encontrar tantas paredes?
A histĂłria Ă© bem interessante
 Quando eu tinha 19 anos – hoje tenho 47 –, meu senhorio teve um papel decisivo ao colocar Ă  minha disposição todos os seus prĂ©dios comerciais no centro da cidade. Desde entĂŁo, a busca por paredes virou um trabalho constante. Ao longo do ano, entramos em contato com os proprietĂĄrios levando em conta a proximidade com os murais jĂĄ existentes e o potencial que cada parede oferece, pra enriquecer e prolongar o percurso.

Como os murais são permanentes, serå que ainda sobram espaços para as próximas ediçÔes?
A cidade ainda estĂĄ cheia de lugares inesperados. Ruelas discretas, paredes “no alto”, calçadas em frente Ă s lojas
 sĂŁo tantas superfĂ­cies prontas para serem pintadas. TambĂ©m decidimos dar uma chance a jovens artistas em superfĂ­cies mais modestas – molduras de portas, lixeiras, bases de letreiros
 em ĂĄreas abandonadas. AlĂ©m disso, o uso de impressĂ”es em vinil nas vitrines permite convidar artistas para transformar as fachadas das lojas.

Como funciona o processo de seleção dos artistas?
Toda primavera, abrimos as inscriçÔes por um mĂȘs atravĂ©s de um formulĂĄrio online. Os artistas enviam seus portfĂłlios, experiĂȘncias anteriores… tudo isso alimenta um banco de dados que fica Ă  disposição da equipe curatorial. AlĂ©m da diversidade, a seleção busca estilos inĂ©ditos na nossa galeria a cĂ©u aberto. Um verdadeiro desafio, mas tambĂ©m uma experiĂȘncia agridoce para definir a lista final.

Os artistas tĂȘm carta branca?
NĂłs NUNCA dizemos a eles o que pintar e seguimos a regra do “no pay, no say”: sem remuneração, sem interferĂȘncia. AtĂ© mesmo os donos das paredes quase nunca sabem de antemĂŁo qual artista vai pintar na fachada deles. Essa liberdade Ă© essencial! O festival Ă© um espaço para respirar, um campo de experimentação onde os artistas podem se soltar, revelar seu estilo e seu talento.

Como vocĂȘs recebem os artistas?
Das melhores maneiras possíveis, com todo o material necessário à disposição. Assim que chegam ao aeroporto, eles são recebidos e convidados para jantar com nossas famílias. Eles ficam hospedados no magnífico Hotel Morado, no coração do Distrito 1881. Nos quartos deles: lanches, bebidas
 sem esquecer nossas meias com estampa de “milho”, que sempre fazem sucesso! Organizamos passeios para eles – caminhadas, stand-up paddle, passeios de barco –, saídas para jantar fora
 Costumo brincar dizendo que somos “os mordomos deles”, porque, seja qual for o pedido, nós atendemos.

Quais foram os outros destaques da edição de 2025?
2025 foi um ano excepcional! Obras magníficas surgiram e, mais uma vez, nossa cidade se transformou. Foi um privilégio acompanhar o intercùmbio entre artistas locais e internacionais.

O que mais te marcou nas criaçÔes deste ano?
Primeiro, o nĂ­vel incrĂ­vel dos artistas! Depois, o “tema” que se destacou: #yearoftheowl [ano da coruja, nota do editor] com trĂȘs murais de corujas. Na cultura indĂ­gena local, a coruja Ă© um sĂ­mbolo de mudança, Ă s vezes um pressĂĄgio de morte. Para mim, percebi isso como um sinal de renascimento. O que antes era apenas um sonho hoje se tornou realidade.

chilliwackmuralfestival.com

© Claudia Wyler

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