Medra: equilíbrio entre tensão e energia

Letras compactadas, formas abstratas, cores vibrantes: Medra desenvolve uma pintura espontânea que se afasta da narrativa em favor da emoção e da interpretação.

Escrever o próprio nome para existir, e depois aprender a “calar-se” para compor. A trajetória de Medra é a de uma transição gradual: da adrenalina das intervenções ferroviárias à concentração silenciosa do ateliê. Essa transição não tem nada de renegação. Pelo contrário, marca o surgimento de uma nova relação com o tempo, com a composição, com o erro. Em suas telas, os traços se sobrepõem, as formas se corrigem. Suas composições não buscam nem contar nem demonstrar: elas agem. A caligrafia perde sua legibilidade para conservar sua energia; as formas se libertam de qualquer referência explícita. O que importa é a tensão entre domínio e abandono, entre construção e acidente.

Em poucas palavras, que lembranças você guarda dos seus anos nos terrenos baldios e nos trilhos de trem?
O compartilhamento, a amizade, a adrenalina… Minha geração teve a sorte de viver a chegada do hip-hop numa época em que tudo ainda estava por inventar, uma corrente artística rica e criativa, que abrangia várias disciplinas. A gente fazia break, rap – eu até escrevia letras, fazíamos grafite… Mas onde eu me sentia mais à vontade era no grafite. O que mais importava era o grupo. Sair juntos pelos trilhos fazia parte da aventura. Guardo poucas fotos dessa época, principalmente das paredes que muitas vezes eram apagadas rapidamente. Mas era assim mesmo: uma prática fundamentalmente efêmera. Vivia-se no momento, pelo prazer do instante, sem outro objetivo além de estar lá.

O que resta dessa época no teu trabalho artístico atual?
Desde sempre, há uma dimensão muito gráfica na minha prática. Naquela época, o lettering ocupava um lugar central; eu fazia pouquíssimas figuras. No entanto, mesmo tendo herança do grafite, meu trabalho se diferencia dele. Tive que me readaptar, aprender a trabalhar com um suporte diferente, em outro contexto. Passar da rua, onde tudo acontece com urgência, para o ateliê implica uma temporalidade diferente, outra maneira de compor. Essa transição aconteceu com o tempo.

Quando foi que percebeste que a tua pintura podia existir fora da rua?
Comecei bem cedo a pintar em tela, primeiro em formatos pequenos. Mas só quando tive um ateliê é que a minha perspectiva mudou. O ateliê oferece tanto o espaço quanto o tempo para que a prática se inscreva no longo prazo. Ter um local dedicado foi fundamental para que essa prática pudesse existir plenamente fora da rua.

Além da relação com o tempo, a mudança da rua para o ateliê mudou a tua maneira de compor?
Na rua, tratava-se, acima de tudo, de escrever o próprio nome para existir. O desafio? Que as letras fossem bonitas e vistas pelo maior número de pessoas possível. Não era realmente uma abordagem artística. Para mim, existe uma prática de rua e uma prática de estúdio, e elas são fundamentalmente diferentes. A pesquisa não é a mesma, nem a relação com a composição. É claro que, sem o grafite e sem esses anos de hip-hop, eu provavelmente não estaria pintando telas. Essa experiência foi determinante no meu processo criativo.

Hoje, o teu trabalho divide-se entre duas linguagens: o lettering e a forma. Como é que essa dualidade se construiu?
Hoje, o meu trabalho gira em torno de duas formas de escrita. Por um lado, há o lettering. Em algumas telas, que chamo de Compression, escrevo meu nome, depois distorço as letras, apago-as parcialmente, faço-as reaparecer… como se as comprimisse, daí o título – uma modesta referência a César. O que importa pra mim não é tanto a legibilidade, mas sim transmitir a energia do grafite, essa pintura de urgência, rápida, direta. Paralelamente, desenvolvo um trabalho com formas orgânicas coloridas e contrastantes. Brinco com cheios e vazios, linhas bem vetoriais, pinceladas mais aleatórias para encontrar o equilíbrio nesse desequilíbrio. Essas obras se inscrevem num contexto pessoal, ligado a momentos da vida, sem que isso se torne narrativo.

Tua tipografia “Compression” é mais minimalista do que teu trabalho com formas…
É uma escolha. Esses dois estilos são complementares. Quando trabalho com letras, meu objetivo é simplificar, mesmo que fazer algo simples seja muitas vezes o mais complexo. Isso implica abandonar certos hábitos, e esse processo leva tempo. Acredito, no entanto, que minha caligrafia agora vai direto ao essencial sem perder sua energia. Por outro lado, no meu trabalho com formas, preciso que haja vibração, que seja vivo, bastante exuberante. É por isso que minhas telas são assinadas no verso. Cada pincelada, cada ponto, cada traço forma um todo que uma assinatura desequilibraria.

Qual é o teu processo criativo? Sempre
há um esboço inicial, mas quase nenhum desenho preparatório. Eu principalmente esboço ideias num caderno. Depois, na tela – assim como no grafite, com exceção das intervenções vandalistas, onde a urgência exige mais preparação porque o tempo é curto –, há muita improvisação. Eu vou avançando aos poucos no que chamo de pintura de acidentes. A tela vai se construindo assim, pouco a pouco, em camadas sucessivas. Se a gente passasse minhas telas no scanner, veria formas e cores retomadas em vários momentos, às vezes meses depois. Eu estou sempre experimentando, e cada tela é uma experiência. É uma pintura instintiva, que se desenvolve ao longo do tempo.

Como você decide que uma obra está pronta?
É, acima de tudo, uma questão de olhar. Passo um tempo observando a tela, às vezes através de uma foto, às vezes simplesmente sentado diante dela. Às vezes a decisão é imediata, mas, na maioria das vezes, leva tempo. Sinto então que falta alguma coisa: uma forma, um traço, uma mancha, um escorrido… que vai destacar o conjunto. Esse detalhe quase imperceptível, provavelmente só eu consigo ver. O trabalho no ateliê me dá essa liberdade de procurar, de testar… e também de errar. Às vezes é frustrante, mas faz parte do processo e é preciso aceitar. Assim, a tela anterior serve de base e dá origem à seguinte.

Para você, a cor serve para criar uma emoção ou para transmitir uma mensagem?
Eu estou claramente no lado da emoção… que também passa pela cor que escolho por acaso. Nas minhas obras, aliás, dá pra ver períodos cromáticos; eu trabalho por ciclos, por famílias de cores. Claro que tenho uma paleta de cores, mas não me proíbo de nada. Tento arriscar, fazer dialogar cores que, no papel, não combinam. Trabalho pouco com cores planas, dando preferência aos degradês e a tudo o que vem do grafite: efeitos da caligrafia, contornos pretos, linhas brancas que destacam as formas… Há uma ligação óbvia com o preenchimento das letras.

Por que a abstração se tornou uma escolha óbvia?
Levei um tempo para chegar à abstração, mas hoje é o que melhor combina comigo. Sempre me senti atraído por um estilo muito gráfico, pela cor e pelo movimento. É nesse registro que me sinto mais à vontade. Não procuro controlar tudo nem fixar o significado. O que importa pra mim é deixar espaço pra interpretação. Alguns veem personagens nas minhas telas, outros veem corações… Gosto que as obras continuem vivas, que ofereçam profundidade e várias formas de interpretação.

O que você quer transmitir?
Não sei se sou a pessoa mais indicada para falar sobre isso. O que posso dizer, porém, é que coloco toda a minha energia nas minhas obras. Uma energia ligada ao que vivo, a algo orgânico, vivo. A vida é feita de desequilíbrios, falhas, tensões, instabilidades. O que tento alcançar e transmitir não é uma harmonia lisa, mas uma forma de equilíbrio dentro desse próprio desequilíbrio. Gosto que a emoção seja imediata logo à primeira vista. Mas gosto tanto quanto isso que os espectadores dediquem tempo para descobrir outros níveis de leitura. Essa dupla temporalidade me alimenta.

Na tua opinião, o que faz com que uma obra perdure no tempo?
É uma obra que fica na memória, que atravessa o tempo.

Você se identifica com alguma influência específica, e de onde vem a sua inspiração?
No início, tem o grafite, claro. Mas também tenho uma verdadeira paixão pela pintura do Soulages e pela do Rothko, que descobri na Fundação Louis Vuitton. A pintura dele me tocou profundamente. Entre os pintores contemporâneos que vieram do grafite, gosto muito do Mist, do Tilt, do Nebay… que se arriscam e se renovam constantemente. De maneira mais ampla, acho que todos nós somos fruto do nosso ambiente, influenciados pelo que vemos, pelo que vivemos, às vezes sem perceber na hora.

O que a pintura significa para você?
Criar é essencial. Para mim, pintar é uma necessidade, quase uma terapia. Para mim, o equilíbrio vem da pintura, mas também do esporte, das relações humanas e dos projetos compartilhados com outros artistas. Aliás, acho que todo mundo deveria ter uma atividade criativa – escrever, esculpir, pintar, não importa o quê –, sem necessariamente buscar um resultado.

Quais são os teus planos?
Estou preparando cerca de dez novas obras para uma exposição individual na Macha Galerie, prevista para a primavera. Uma exposição composta exclusivamente por peças inéditas. Estarei presente na feira Lausanne Art Fair de 7 a 10 de maio de 2026. E, em novembro, participarei da exposição da Sino em Puteaux.

Dá uma olhada
na Macha Galerie:
machagalerielibrairie.com
Instagram: @macha.galerie.librairie
ARTFWD Gallery: artfwd.gallery
Instagram: @galerie.artfwd
Galerie Sino&Co: @sino_and_co

Medra: @medra_since72

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