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S4M: um futuro bem presente

«Prefiro o futuro ao passado porque é lá que vou passar o resto dos meus dias», afirmava Victor Hugo. Ao olhar para os quadros de S4M, dá pra duvidar disso, como sugere o título da sua próxima exposição individual, «O futuro: antes era melhor».

Há muito tempo que a gente se apaixona por seus robôs amassadinhos, mas também por seus corpos desarticulados e seus retratos melancólicos. Esse profissional da área audiovisual, que é difícil acreditar que seja autodidata, soube transformar a educação artística que recebeu dos pais e sua paixão por quadrinhos em uma abordagem artística original. Esse fã incondicional de Enki Bilal — “pelas suas atmosferas e composições tão poderosas” — gosta especialmente de ambientes contrastantes, claroscuros, “low-keys”, mas também da efervescência criativa da arte de rua.

Como você descobriu a arte urbana?
Tive uma verdadeira paixão pelo trabalho do C215, seus gatos, seus retratos… Comecei a me interessar um pouco mais por esse universo, tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas que me deram uma força, me incentivaram a ir um pouco mais longe… Apresentei minhas primeiras telas no Lavo//Matik e já faz cinco anos que exponho trabalhos em galerias. E graças a artistas como Graffmatt ou Raf Urban, que me disseram: “Pensa grande, não seja tímido”, resolvi tentar a sorte nas ruas. No começo, não é fácil; parecia que era preciso ter uma certa legitimidade para ousar expor obras à vista de todos.

Esse contato com a arte de rua mudou a tua prática?
Sim. Por muito tempo trabalhei em preto e branco ou com pouquíssimas cores e, mesmo que minha paleta ainda não seja muito ampla, passei a usar tinta acrílica, uma tinta bem opaca que combina bem comigo. Também estou experimentando usar spray para murais em grande formato. Além disso, os artistas de rua aprendem a precisão com o trabalho em estúdio; comigo é mais o contrário, preciso aprender a soltar mais o traço e não voltar atrás. Tem artistas que são muito bons com apenas alguns traços, formas e movimentos muito fortes. Eu, por outro lado, tenho um estilo que se baseia mais na precisão. Preciso dedicar tempo a cada obra, voltar a ela, trabalhar os detalhes. Tenho dificuldade em parar, o que não é necessariamente uma qualidade [risos].

Seja qual for o suporte e a técnica, existe alguma constante no teu trabalho?
A luz. É algo que realmente vem da minha profissão. É a luz que define o enquadramento, a profundidade… A diferença em relação à fotografia é que eu não uso a luz natural nem aquela que eu crio com iluminação, mas sim a invento completamente, desde que ela permaneça coerente. Quando pinto, penso como se estivesse em um estúdio. Eu digo a mim mesmo: a luz vem daí, então ela projeta tal cone, tal sombra, tal reflexo…

De onde vem esse teu universo tão pessoal?
As atmosferas distópicas e retrofuturistas me inspiram muito. No fundo, isso vem de uma atração especial pela ficção científica, misturada com preocupações que, infelizmente, muitos de nós sentimos: o desgaste do planeta, o esgotamento dos recursos, a degradação do meio ambiente…

Entre os teus temas emblemáticos, os robôs aparecem com
frequência…
Sim, mas não são super-heróis; estão sempre desgastados pelo tempo, um pouco bambos, com carcaças enferrujadas. São mais máquinas improvisadas, que funcionam mais ou menos.

Isso tudo não é muito alegre…
Não, e aliás me chamam a atenção para isso com bastante frequência [risos]. Mas eu me esforço para dar um toque um pouco mais alegre. Não tenho uma visão muito positiva e não é bem isso que o estado do mundo nos mostra. No entanto, sempre há um fundo de otimismo. Eu penso que a natureza é capaz de recuperar seus direitos e que, felizmente, algumas pessoas têm recursos suficientes para propor soluções.

Aliás, esse é o tema da tua exposição na galeria Nature Forte?
Sim, ela se chama “O futuro: antes era melhor”. Fiquei pensando que, quando eu era jovem, nos prometiam um mundo melhor, cheio de tecnologias maravilhosas. E quanto mais avançamos, mais percebemos que o futuro não é tão promissor assim. Então, imaginei objetos tecnológicos, dos quais não se sabe muito bem se realmente serviram para alguma coisa antes de serem abandonados. É um pouco como se os redescobríssemos anos depois, desgastados pelo tempo. É a imagem dessa sociedade em que é preciso sempre ter o aparelho conectado mais recente que vai facilitar a sua vida. E, um mês depois, ele não serve para nada porque o próximo já foi lançado. Enquanto isso, a gente produz cada vez mais, entulhando o planeta de baterias…

É uma ambiguidade que você vê na sua profissão?
Com certeza. Não precisa ser um profissional pra perceber isso. Oferecem câmeras de 8K, 10K… até mesmo em smartphones. E, no fim das contas, voltamos às imagens à moda antiga, colocamos lentes antigas em aparelhos novinhos em folha pra recriar a estética dos filmes dos anos 1970 ou 1980.

É por isso que, sendo alguém tão envolvido com a tecnologia, você escolheu uma abordagem artística tradicional? Com
certeza tem um pouco disso, sim [risos].

É a primeira vez que você trabalha numa série tão grande?
Sobre o mesmo tema, sim. A ideia da galeria é mostrar a natureza recuperando seu espaço. Para essa exposição, produzi cerca de trinta peças, muitas delas em formatos pequenos. Tive vontade de me dedicar totalmente a isso; combinava bem com o que eu queria fazer.

Depois do Nature Forte, vamos te ver no Lavo//Matik com uma exposição individual com um espírito diferente…
Sim, vou voltar a abordar os rostos e os corpos, que são outro dos meus temas favoritos. Se a fotografia me levou a trabalhar com a luz, o vídeo me levou a trabalhar com o movimento, outra das minhas obsessões [risos]. Pintei muitas figuras dançando, pulando… Retomar esse espírito é muito importante para mim.

A não perder
: «O futuro: antes era melhor»

De 20 de novembro a 6 de dezembro de 2025
De quarta a sábado, das 13h às 19h, e com hora marcada
Galeria Nature Forte
27 rue Jacques Louvel-Tessier 75010 Paris
natureforte.com
Instagram: @galerienatureforte

Exposição Individual
De 23 de janeiro a 7 de fevereiro de 2026
Terças-feiras, das 12h às 17h; de quarta a sábado, das 12h às 19h
Lavo//Matik
20 boulevard du Général d’Armée Jean Simon 75013 Paris
lelavomatik.com
Instagram: @lelavomatik

S4M: @s4m_artwork

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