Gatuno: a arte de conectar a cidade com a vida
Além de uma linguagem gráfica orgânica e psicodélica, Gatuno oferece uma experiência pictórica direta, baseada na sensação e na presença.
Artista urbano brasileiro de São Paulo, Gatuno vem desenvolvendo há mais de uma década um universo singular onde o grafite dialoga com a natureza, os animais e formas orgânicas com toques psicodélicos. Inspirado pela cultura do skate e da rua do seu bairro natal, Cambuci, ele fez do gato — figura que surgiu quase por acaso — o fio condutor da sua obra, que com o tempo se tornou sua marca visual. Entre paredes emblemáticas, instalações monumentais em festivais por meio do projeto Egrégora e intervenções internacionais recentes, como no Spot13 em Paris, Gatuno explora uma prática profundamente enraizada no espaço público, na experiência coletiva e na acessibilidade da arte. Seu trabalho convida a desacelerar o olhar, a respirar no coração da cidade e a se reconectar com uma energia ao mesmo tempo urbana, orgânica e profundamente humana.
Como o desenho e o grafite entraram na tua vida, e de que forma o fato de ter crescido no bairro de Cambuci influenciou a tua trajetória artística?
Eu desenho desde pequeno e nunca perdi esse hábito. Andar de skate no meu bairro me permitiu descobrir e absorver toda a cultura que vinha junto com isso. Isso claramente me inspirou a partir em busca do meu próprio estilo e a continuar esse jogo eterno que é pintar e sair à descoberta de novos lugares.
A figura do gato hoje é indissociável do teu nome. Como essa figura surgiu e como o apelido “Gatuno” se impôs no teu trabalho?
A criação do gato surgiu por acaso. Em 2010, enquanto buscava meu próprio estilo por meio de desenhos de observação, eu estava prestes a desistir quando vi um dos meus gatos dormindo em cima da TV. Decidi desenhá-lo. Depois desse primeiro esboço, redesenhei-o várias vezes até encontrar uma forma que combinasse comigo. Comecei a pintá-lo em uma parede discreta do bairro de Cambuci, sem nunca assinar. Durante três anos, o personagem permaneceu anônimo, até que as pessoas começaram a chamá-lo de “Gatuno”. Esse nome se impôs naturalmente e se tornou minha assinatura.
Tuas obras são fortemente marcadas pela natureza, pelos animais e por formas quase fractais. O que te atrai nesses elementos orgânicos e psicodélicos?
Nasci e cresci em São Paulo, a maior metrópole da América do Sul. Pintar animais e a natureza é como respirar, uma válvula de escape para recuperar o fôlego. As formas psicodélicas são fascinantes porque funcionam como uma ponte visual entre o mundo físico e o subconsciente, traduzindo experiências internas em uma arte vibrante e complexa. Não são simples desenhos aleatórios, mas muitas vezes reflexos de padrões neuronais e matemáticos.
As asas coloridas se tornaram um verdadeiro símbolo urbano em São Paulo, principalmente no Beco do Batman. Como você explica esse forte envolvimento do público com essa obra?
O Beco do Batman já era um lugar emblemático e muito frequentado em São Paulo. Também aproveitei a onda do “instagramável”, quando o público buscava interagir com o espaço urbano para tirar fotos. Eu nunca tinha pensado em uma obra voltada para a interação. Em 2016, a pedido de um morador da Vila Madalena, na Rua Harmonia, pintei pela primeira vez um par de asas, mantendo-me fiel ao meu estilo, daí a cara de gato. Rapidamente, os transeuntes que iam para o Beco do Batman formaram uma fila… O sucesso veio do lugar certo, na hora certa.
Pintar animais e a natureza é como respirar, uma forma de dar uma pausa para recuperar o fôlego.
Muitas pessoas não percebem que, vistas de longe, as asas formam o rosto de um gato. Por que era importante para você preservar essa dualidade nas suas criações?
A ideia de criar o gato foi só um pretexto para pintar por toda parte, conhecer melhor a cidade e sentir um pouco de adrenalina. Preservar o rosto nas asas foi algo natural: era o que eu já fazia, então não faria sentido pintar só as asas sem o rosto do gato.
O grafite é, por natureza, uma arte de rua e, portanto, acessível. De que forma projetos como o Grafitti #PraCegoVer®️ vão ainda mais longe nessa lógica de acessibilidade?
Acho que o conceito é o mesmo: proporcionar acesso à arte a pessoas que, de outra forma, não poderiam desfrutar dela. Esse é um dos aspectos mais bonitos da Arte Urbana. Levar a arte a um público com deficiência se torna uma espécie de porta de entrada, tanto para essas pessoas quanto para o espectador comum que ainda não conhecia essa experiência. Viver isso foi muito gratificante.
Paralelamente ao grafite, você desenvolve o projeto Egrégora com sua companheira Florest. Como ele surgiu e o que te atrai nessa transição da pintura mural para a escultura imersiva e coletiva?
O Egrégora surgiu da vontade de criar esculturas de madeira em grande escala destinadas aos palcos de festivais de música. O projeto mistura diferentes estilos e formas, usando materiais rústicos e orgânicos, com ornamentos figurativos e abstratos. Ao explorarmos juntos novas linguagens artísticas, a Florest e eu sentimos a necessidade de dar uma identidade a esse trabalho conjunto. O termo “egregora” evoca a energia coletiva que surge dos pensamentos e emoções compartilhados por um grupo, uma noção que se materializa tanto na criação quanto na execução. Ao contrário do mural, que continua sendo uma experiência mais individual, o projeto cenográfico é profundamente coletivo. Mesmo que o processo criativo seja conduzido por nós dois, outras mãos intervêm na materialização, assim como elementos como a luz, o som ou o palco. Uma vez a obra instalada, a interação do público com a arte e a música prolonga essa energia coletiva por meio da experiência da dança.
De que forma o diálogo artístico com o Florest influencia a tua maneira de criar, tanto no plano estético quanto no conceitual?
Embora nossos estilos sejam diferentes, nós dois estudamos a natureza e seus elementos: o Florest através da criação de seres oníricos; eu, através dos animais. No fim das contas, tudo dialoga de forma harmoniosa entre formas abstratas e geométricas. Acho que essa união nos leva a explorar novas possibilidades.
Recentemente, você fez seu primeiro grande mural em Paris, no Spot13. O que você achou dessa experiência e da energia do lugar?
Pintar em Paris foi uma experiência incrível. O mural ficou pronto rapidinho: em três dias, consegui terminá-lo. Pude conhecer vários artistas com estilos bem diferentes e ver de perto uma cena de grafite tradicional muito forte, principalmente em torno das letras, o que foi super inspirador. As cenas de Paris e de São Paulo se parecem no espírito, mas continuam sendo diferentes. Em Paris, o uso do spray é muito predominante, enquanto em São Paulo vemos mais misturas entre tinta látex, rolo e spray, principalmente por questões de acessibilidade. O Spot13 também foi um grande aprendizado: entender a história do lugar, marcado pela ocupação e que se tornou uma verdadeira galeria a céu aberto, deu ainda mais sentido à experiência. Fui muito bem recebido pelo público e pelos artistas. Graças ao convite de Gary Laporte [NAGA, NDLR], nosso ponto de referência na Europa, e à recepção de Joko, tive trocas muito enriquecedoras e espero poder voltar em breve.
Não deixe de conferir
o Gatuno: @gatunoart







