Renk’Art: uma pequena joia da arte urbana
Como “arquivista” de uma cultura urbana em constante transformação, a Renk’Art, “na encruzilhada entre arte, moda e história”, transforma fragmentos de arte de rua em criações eternas.
Com suas joias únicas, a Renk’Art – Marion para os amigos – revela a história de um importante movimento artístico. Arqueóloga do grafite, ela extrai diretamente do espaço urbano sua matéria-prima: pedaços de tinta sobrepostos, arrancados das paredes após terem absorvido décadas de expressão artística (dois milímetros de espessura correspondem a quase cem grafites sucessivos!). Coletados e trabalhados à mão, esses fragmentos, únicos vestígios tangíveis de uma arte essencialmente efêmera e verdadeiros “fósseis artísticos”, transformam-se nas mãos de Marion em obras únicas montadas em prata que encapsulam a história do grafite e das cidades que o abrigam, celebrando a riqueza das camadas acumuladas ao longo do tempo. Tantas histórias inscritas na própria matéria: a do grafiteiro, da parede, da cidade, de uma época… Com suas coleções “Bijoux de Ville”, dedicadas às grandes capitais da arte de rua (Berlim, Paris, Lisboa, Londres, Bruxelas…), a Renk’Art te convida a uma viagem entre memória e criação. Ao mesmo tempo, a artista apaixonada multiplica as colaborações com figuras importantes do movimento, afirmando assim seu compromisso com uma transmissão duradoura e estética do patrimônio urbano.

Como surgiu essa ideia de reutilizar camadas de grafite?
Como nasci em uma galeria, sempre tive uma sensibilidade pela arte. De forma bastante natural, me interessei pela arte de rua, algo mais presente na minha geração. O grafiteiro pintando como um vândalo nas vias férreas à noite era, para mim, quase um sonho. Quando cheguei a Paris, tive a sorte de conhecer os membros da galera RSK, que eu costumava acompanhar na Petite Ceinture e ao longo do Canal de l’Ourcq. Com eles, descobri a história e o universo da arte de rua. Até fiz duas ou três pintadas [risos]. As cascas de grafite que eles jogavam no canal – pedaços inteiros de parede de 1 ou até 2 m² cheios de intensidade – me pareceram um material arqueológico: cada camada era, pra mim, um momento preso no concreto com uma cor, uma temporalidade, uma história… Minha primeira intuição foi escavar esses fragmentos para revelar as camadas, emoldurar esses pedaços e oferecê-los aos amigos. Quando fui morar em Berlim, me instalei perto do Mauerpark [antiga terra de ninguém criada em uma zona tampão do antigo Muro de Berlim, NDLR], hoje adornado com um pedaço de muro dedicado aos grafites, onde encontrei camadas com mais de 20 cm, hipercoloridas, hiperdensas… que recolhi freneticamente. Um dia, uma dessas peças rachou ao meio. Olhando para elas, imaginei-as como acessórios e as transformei em brincos! Como muitas pessoas me paravam na rua para perguntar onde eu as tinha comprado, comecei a atender pedidos. Depois, tudo aconteceu muito rápido: estar em Berlim me deu um certo alcance internacional, graças aos muitos turistas que levavam minhas peças para os quatro cantos do mundo.


2. Anel ajustável Berlin.
Como você se “profissionalizou”?
Me aperfeiçoando, fazendo testes e evitando produtos químicos, moldando cada fragmento à mão. Foi assim que descobri a resina epóxi, que aplico com pincel. São necessárias de 4 a 5 camadas de epóxi por lado, com 48 horas de secagem entre cada camada. Também aprendi muito com a Marion Fillancq [escultora de joias, NDLR], que me abriu as portas do seu ateliê, onde me formei em alta joalheria.
Depois de Berlim, você diversificou…
Mesmo que a coleção “Berlim” continue sendo meu best-seller, já que a história do muro é tão marcante…, de volta à França, percebi que meu conceito podia ser adaptado de infinitas maneiras. Sempre que existe uma cena de arte de rua em uma cidade, sei que vou encontrar material, ainda mais porque sou “coletivora”. Por isso, houve um enorme interesse por Londres quando lancei a coleção.
Quais são as cidades que inspiraram uma coleção?
Berlim, Paris, Lisboa, Londres, Bruxelas, Roubaix, Seine-Saint-Denis e Roubaix – minhas peças estão à venda na loja conceitual perto do museu La Piscine. Em cada cidade, mas também nos ateliês dos artistas, eu também coleciono fragmentos e tampas que depois transformo em lustres. Cinco desses lustres – o Alexis, o Fred, o Tommy… nomes reais de amigos artistas que guardam suas tampas para mim – estão, aliás, expostos em Roubaix, num lugar atípico chamado Le Couvent.

Existe uma identidade diferente da arte de rua em cada cidade?
Com certeza! Do grafite em Berlim, com camadas bem grossas, algumas que datam dos anos 1990, a uma mistura de grafite, cartazes e adesivos em Paris, passando pelo grafite e colagens de papel em Lisboa… Há diferenças dependendo das cidades, mas também das práticas.
Essas diferenças influenciam o uso da tua coleção de fragmentos? De
jeito nenhum. Só os pedaços, tanto a natureza quanto o tamanho deles, é que determinam a peça. Por exemplo, preciso de dois pedaços iguais para peças que vêm em pares, como brincos, e simples lascas podem ser suficientes para anéis. Para pingentes, as duas faces precisam ser interessantes, enquanto que para um broche, basta apenas uma.
Como se trata de peças únicas, como você as produz?
Tenho um pouco de estoque e também produzo sob encomenda.



5. Colaboração Renk’Art x Le Diamantaire, protetores de mamilos – © Canelle Doublekick.
6. Colaboração Renk’Art x Le Diamantaire, brincos – © Canelle Doublekick.
Para as tuas criações, tu também fazes colaborações com artistas. Como é que os escolhes?
Apesar da minha formação artística ser mais moderna e contemporânea, logo me senti atraída pela arte de rua, com um gosto especial pela sua vertente vandalista e subversiva. No entanto, são principalmente os meus favoritos que determinam as colaborações. Mesmo assim, tento escolher artistas com estilos diferentes. Primeiro veio o Dok, figura importante da cena do grafite francês, um estereótipo do grafiteiro que é ao mesmo tempo um ursinho gentil e um “bad boy”, que me recebeu de braços abertos no seu ateliê em Marselha durante a Covid. Uma primeira experiência muito formativa que validou o meu conceito. Para a minha segunda colaboração, o Cren me procurou diretamente… para minha grande alegria. No ano seguinte, tomei coragem e mandei uma mensagem para o Lek, que eu não conhecia, mas cujo trabalho eu adorava. Finalmente, este ano, escolhi o Le Diamantaire — a gente se segue há anos nas redes sociais — por causa do seu meio de trabalho com espelhos, que é muito visual. Eu também queria trabalhar com outro material para diversificar meu repertório, já que o grafite pode parecer muito cru para algumas pessoas.
Como você trabalha nessas colaborações?
Primeiro, é um encontro artístico! Depois, mesmo que eu precise passar vários dias no estúdio deles pra me inspirar, mantendo-me bem discreta, cada colaboração é diferente. O Dok pintou um mural do qual eu retirei fragmentos pra criar peças que depois retrabalhamos à mão. Com o Cren, trabalhamos em uma enorme pilha de cartazes do Muro de Berlim, mas também na primeira parede que ele pintou em Hamburgo, e da qual ele guarda pedaços em casa há mais de vinte anos! O Lek desenhou sua matriz e depois me deu carta branca para moldar o material recuperado diretamente no ateliê dele, enquanto ele preparava uma grande exposição. No caso do Le Diamantaire, cuja única exigência era a assimetria, parti de pedaços de espelho que encontrei no chão do ateliê dele. Cada colaboração me toma muito tempo, cerca de 6 meses, e energia, porque me coloco muita pressão para estar à altura dos artistas com quem colaboro. E às vezes é complicado conciliar as colaborações com meus projetos pessoais.


Quantas peças você cria para cada colaboração?
Cerca de 50, além de algumas peças de parede bem marcantes, muito visuais, muito atraentes, bem na moda… como os peitorais ou a armadura. Mesmo que sejam peças quase impossíveis de vender, elas chamam a atenção e despertam a curiosidade. Peças que eu poderia emprestar para as celebridades, já que não são usáveis no dia a dia, mas que fazem parte da história… E eu adoro a ideia de que alguém possa usar uma peça e pendurar uma segunda, combinando, em cima do sofá. O cúmulo da elegância [risos]!
Quais são os teus planos?
Sair da Europa, principalmente para expandir internacionalmente. Aliás, vou viajar em breve para os Estados Unidos para preparar a próxima coleção dedicada a Nova York, que estará disponível a partir de abril. Também pretendo trabalhar com outros objetos além dos lustres, peças imponentes e maciças. Também gostaria de estabelecer colaborações com grandes marcas de designers, principalmente na moda, até mesmo na alta costura, para tudo que diz respeito a acessórios, arquitetos de interiores, decoradores… uma forma de tornar o estilo urbano chique [risos]. Por fim, quero ter mais influência nas minhas colaborações com os artistas.
Com quais artistas você gostaria de colaborar?
Invader, para trabalhar com fragmentos de mosaico; Does, pelo seu trabalho com cores dinâmico e cheio de energia; Katre, pelas suas linhas; Brusk, pela sua estética explosiva… e Sowat, claro!
Confere o
Renk’Art: https://renkart.eu
Instagram: @renkartberlin







