VALÉ: a humanidade como matéria-prima

VALÉ explora aquele momento delicado em que um rosto mostra uma cultura sem a reduzir. Suas imagens questionam tanto a nossa maneira de ver o outro quanto de viver no mundo.

Na pintura de Valérian Lenud, também conhecido como VALÉ, tem um desejo de consertar a forma como a gente se relaciona com os outros. Não com palavras, mas com composições que educam nosso olhar, deixando-o mais atento. Seus retratos têm um paradoxo: são ao mesmo tempo frontais e abertos, ligados a corpos únicos, mas também carregam histórias individuais ou coletivas. O artista explora assim a ideia de que um rosto pode carregar uma geografia, uma história, uma luta e, às vezes, uma saída. Ele trabalha por camadas, como se tecesse um laço, sobrepondo nuances de cinza, reflexos de cor, texturas, respingos… dando voz a múltiplas identidades. Cada obra se torna um campo de tensão entre a delicadeza do traço e a intensidade cromática, entre o real e o imaginário. É aí que reside a força crítica de seu trabalho, nessa vontade de restituir a cada figura a diversidade que nossas sociedades temem. Em vez de um apelo ingênuo à harmonia, sua prática esboça um horizonte possível, o de uma convivência que se constrói através da atenção, da benevolência e da partilha.

Seu trabalho se baseia numa profunda crença no ser humano. Como ela se formou ao longo de suas viagens?
Mesmo já tendo viajado pela Europa, foi em 2012, aos 21 anos, quando deixei a França para ir para a América do Sul, que minha viagem realmente começou. Lá, descobri a diversidade de culturas, idiomas, modos de vida e, paradoxalmente, tudo o que nos une além dessas diferenças. Onde quer que eu fosse, apesar das barreiras linguísticas, sempre havia uma conexão. Seja através de um sorriso, um olhar, uma atitude, nós nos entendíamos. Compreendi que éramos todos seres humanos com uma história, emoções, independentemente das nossas origens. Esses encontros com pessoas simples, verdadeiras e acolhedoras me devolveram a fé na humanidade. Depois da América Latina, viajei pela Índia, antes de me estabelecer no México em 2013. Foi lá que decidi construir minha vida, tornando-me, por minha vez, um imigrante. Acredito profundamente que as misturas culturais são indispensáveis para a compreensão do mundo e o desenvolvimento da inteligência emocional.

Você fala da viagem como um processo de iniciação. O que a gente aprende sobre si mesmo quando pinta no México, na Tailândia, no Quênia…?
O melhor conselho que se pode dar a alguém que está entrando na vida adulta é partir sozinho, com uma mochila nas costas, para sair da sua zona de conforto e se confrontar com os outros. Viajar é estar entregue a si mesmo, mas com um campo infinito de possibilidades à sua frente. Todos os dias, escolhemos o que queremos fazer, para onde ir e com quem. Fio condutor das minhas viagens, a pintura dá-lhes sentido. Pintar com artistas locais ou ir ao encontro de comunidades cria uma relação de troca e partilha. Esses momentos em que você ouve os outros enquanto compartilha sua própria história fazem você refletir sobre si mesmo: quem você é, o que você quer ser, o que você realmente deseja, para onde você quer ir. Ao mergulhar nas culturas que você encontra, você pega o que parece bom para você e leva isso com você tanto na vida quanto na sua criação artística.

Qual é o lugar da ideia de “compartilhar” na sua prática?
É essencial. É por isso que continuo viajando e fazendo projetos em vilarejos ou nas ruas: é lá que rola o diálogo, a conexão, o compartilhamento. É uma troca cultural e artística onde a pintura substitui as palavras. Criamos juntos, aprendemos uns com os outros enquanto transmitimos algo. Em cada projeto, tento envolver a comunidade local. Na Tailândia, por exemplo, com a comunidade Hmong, as crianças me acompanharam desde a captura das fotos até a realização do mural. No Quênia, com os Maasai, o mural foi quase inteiramente obra deles: eu estava lá apenas para orientá-los e incentivá-los. Mesmo na cidade – Bangcoc, Paris… –, pintar na rua sempre gera conversas com os transeuntes, os moradores. Alguns, inicialmente desconfiados, acabam me convidando para um café, uma refeição.

Você explora temas como diversidade, paz, identidade ou infância. O que liga esses assuntos no seu pensamento artístico?
Na minha opinião, o racismo, a rejeição do outro ou até mesmo os conflitos vêm de uma falta de conhecimento, empatia e, principalmente, educação. E, para mim, a mudança só pode vir das futuras gerações, ou seja, das crianças. É por isso que trabalho com os temas da infância e da paz através do meu projeto “Peacemakers”, no qual imagino as crianças como “soldados da paz”, armados com bombas de tinta e pincéis. Esse projeto questiona como a arte pode transmitir mensagens capazes de mudar as coisas.

Suas obras atravessam fronteiras culturais. Como você evita a exotização e o pathos?
É sempre muito delicado, mas acho que o que me ajuda é que eu realmente vivo o que conto: eu visibilizo culturas através de uma experiência, uma maneira de viajar, de estar com os outros, e não de um ponto de vista externo ou turístico. Procuro me integrar, dedico tempo para conversar com as pessoas e sempre me pergunto se dei mais do que recebi. Essa abordagem se reflete em minhas obras. Gosto de enfatizar os adornos, as joias, os acessórios… tudo o que representa a identidade cultural de uma pessoa ou de um grupo, em contraste com os rostos que trabalho em preto e branco.

Como você consegue o equilíbrio entre engajamento e estética?
Eu vejo a arte como um meio de passar mensagens e não só como uma busca estética, mesmo que isso também seja importante. Meu trabalho é figurativo, então é bem visual, bem direto. O equilíbrio talvez esteja no fato de não ter nenhum preconceito, de não expor o problema de forma frontal, mas sim refletir sobre uma solução, propor um imaginário — um pouco utópico — de um mundo mais justo.

Sua vida no México mudou sua relação com as cores, a luz e o simbolismo?
O México é o país do meu coração, e basta pisar lá para entender o quanto a alegria e as cores fazem parte do dia a dia. As fachadas das casas, as bancas dos mercados, as festas, as decorações… tudo é colorido. Enquanto na França o Dia dos Mortos é um momento bastante sombrio e triste, o Día de Muertos é uma oportunidade para celebrar nossos entes queridos que já se foram com oferendas, cores e celebrações. E esse é só um exemplo entre muitos outros. Como desenvolvi minha prática artística em grande parte no México, meu trabalho incorpora essa relação direta, quase física, com a cor. Gosto que minhas obras transmitam uma energia vibrante, uma alegria quase tátil, uma espécie de explosão cromática. A cor não é um adereço: ela carrega uma emoção, ela se torna uma narrativa.

Suas obras combinam estêncil, acrílico, aerossol, pastel e fotografia. Como você combina esses meios? Sempre
curti trabalhar com diferentes ferramentas e técnicas. Hoje, meu principal meio é o estêncil, cortado à mão. Ele me ajuda a manter o realismo da fotografia, principalmente no retrato. Primeiro, trabalho os fundos, aplicando texturas. Depois, uso acrílico com espátula ou pincel para criar áreas planas e, em seguida, brinco com várias cores dentro do mesmo estêncil. Os acabamentos são feitos com outras técnicas, como pastel ou respingos, para quebrar o aspecto rígido do estêncil.

Na base, tem as fotos que você mesmo tira. Como você passa da imagem documental para a composição pictórica?
A fotografia sempre esteve comigo. Sempre tive essa relação com a imagem, com o momento, com a lembrança. Ao longo das minhas viagens, acumulei muitas fotos e, naturalmente, elas se tornaram temas para as minhas composições. Em cada viagem, sempre privilegiei os encontros — às vezes mais essenciais do que o destino —, o que me levou ao retrato. Para mim, o olhar, ao qual dou uma atenção especial, carrega uma carga emocional e narrativa única. Para algumas criações, parto das minhas fotos, transformando o momento capturado em uma obra pictórica e contemporânea, na qual me permito alterar formas, texturas e cores. Outras são mais montagens, construídas a partir de um rosto ao qual adiciono meus próprios elementos, como nas peças dedicadas às crianças-soldados.

Seu processo criativo tem uma densidade quase que palpável. Essa materialidade é importante?
A materialidade é essencial porque cria uma ligação entre a imagem e o lugar, seja na tela ou numa parede que já carrega uma história, marcas do tempo, vidas. Ao trabalhar diferentes camadas, sombras, luzes, texturas, a pintura ganha vida. Essa espessura dá uma dimensão humana à obra.

Qual é a diferença entre o seu trabalho na rua e o seu trabalho no ateliê?
Eu curto a rapidez da rua, a adrenalina, a espontaneidade, mas também a calma do ateliê, a introspecção e a reflexão que ele permite. Para manter essa dualidade, esses dois espaços são inseparáveis, e é por isso que minhas obras existem tanto na tela quanto na rua. Tanto mais que cada mural se baseia primeiro num longo trabalho de recorte no ateliê: é lá que eu reflito sobre a composição, as cores, o local onde eu gostaria de intervir… Pintar na rua permite-me devolver à Street Art o que lhe pertence: uma obra espontânea, efémera, em harmonia com o seu ambiente, visível e acessível a todos. No ateliê, a tela me oferece a possibilidade de tornar uma ideia quase “imortal”, graças a um objeto físico, tangível.

Depois de “Inhabitants” e “Peacemakers”, como seria para você o “próximo capítulo” do seu trabalho?
Esses dois projetos estão vivos e destinados a evoluir. “Peacemakers” é internacional, uma exposição itinerante que apresento em todo o mundo – Melbourne, Cidade do México, Bangcoc, Paris ou, recentemente, Stavanger, na Noruega. “Inhabitants” também continua, pois continua sendo o tema central das minhas viagens, dos meus encontros, do meu aprendizado e do que desejo compartilhar. É o fio condutor que liga todos os meus projetos. Mas, sendo hoje um jovem pai, as questões relacionadas à infância, ao mundo e ao seu futuro incerto ocupam um novo lugar nas minhas reflexões. O próximo capítulo surgirá, sem dúvida, dessas questões.

Dá pra dizer que seu trabalho tenta, acima de tudo, conectar as pessoas? Sua prática é uma forma de tornar real a ideia de “viver juntos”?
Sim, acho que é uma boa forma de resumir. Como já falei, quero propor um mundo onde as diferenças nos unam. Através dos meus projetos, quero tornar tangível a ideia de viver juntos e retratar a diversidade, seja ela cultural ou artística. É por isso que procuro que minha arte reflita minha vida e que minha vida alimente minha arte.

Quais são seus planos?
Depois de um ano de 2025 intenso e da chegada do meu filho Diego, vou começar 2026 com calma, com minha família, antes de organizar o que vem a seguir. Muitos projetos precisam ser confirmados, principalmente com a Médicos Sem Fronteiras em Cidade do México, um mural para o bicentenário da amizade franco-mexicana, uma nova parceria com uma galeria no Brasil e, depois, um retorno à Europa na primavera para os festivais, uma exposição coletiva em Londres e uma nova exposição na Noruega.

Para ver
Valérian Lenud:
valerianlenud.com
Instagram: @vale_stencil

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