CAN2: da necessidade de aparecer à necessidade de durar
Sempre mudando, a linguagem do CAN2, inspirada na história do grafite e suas origens mais antigas, mostra um equilíbrio raro entre disciplina, energia e profundidade, afirmando uma identidade e criando uma presença.
A obra de CAN2 se desenvolve como uma arquitetura viva. A letra – matriz, estrutura, espinha dorsal do gesto – respira, se contorce, gira, salta como um corpo em movimento, tornando-se organismo, pulsação, afirmação de uma identidade que se refina ao longo dos anos. Seu processo mostra um diálogo constante entre a análise que estrutura o desenho e o instinto que libera sua energia, eletrizando a superfície com uma vibração quase sonora. Um ancora, o outro impulsiona, criando uma tensão fértil entre controle e liberação. Fiel às raízes do grafite, o artista mantém a legibilidade da letra, ao mesmo tempo em que absorve novas dimensões que o levam a um território mais arcaico: o do gesto primitivo. Ao explorar as camadas do pigmento soprado e da narrativa condensada na pedra, CAN2 convoca os códigos da arte parietal para questionar essa necessidade ancestral de marcar uma superfície para afirmar sua presença. Ao cruzar a imediatidade original e a sofisticação da escrita, o artista estica a linha do tempo, fazendo dialogar dois impulsos idênticos: mostrar-se, deixar um rastro, inscrever um gesto. Sua obra avança então em uma linha tensa entre herança e invenção, caos e domínio, para uma presença, uma pulsação, um estado de espírito.
Você sempre fala sobre como seu estilo foi mudando aos poucos. Olhando pra trás, você vê isso como uma busca pela perfeição ou pela identidade?
Nunca foi uma questão de perfeição. Acho que a perfeição é uma ilusão, especialmente no grafite, onde as obras ficam nas ruas, expostas ao tempo, às intempéries e ao olhar do público. O que me motiva é a identidade: encontrar e refinar uma voz que seja inconfundivelmente minha. Meu estilo evoluiu lentamente porque sempre quis que ele crescesse de forma orgânica, sem seguir tendências ou procurar atalhos. Cada fase, cada experiência, cada parede enriqueceu meu DNA visual. Não é um percurso linear, mas sim uma espiral: volto constantemente às mesmas ideias centrais, sempre com uma nova compreensão.
No seu trabalho com letras, cores e movimento, qual é a parte de análise e qual é a parte de instinto?
Os dois são essenciais. Quando desenho, há uma grande parte de análise para a estrutura, o ritmo, as proporções. As letras têm uma arquitetura; elas precisam funcionar juntas visualmente e conceitualmente. Mas assim que começo a pintar, o instinto toma conta. Confio no movimento, no momento, na energia. O trabalho analítico me oferece uma base sólida que permite que o instinto se expresse sem cair no caos. Com o passar dos anos, percebi que minhas melhores peças nascem desse momento em que o pensamento e o gesto se fundem, quando eu não planejo mais nada, mas continuo consciente da estrutura que sustenta o conjunto.
Suas letras continuam legíveis, mesmo sendo complexas. Isso é uma regra que você mesmo criou ou uma forma de respeitar a tradição do grafite?
É claramente uma questão de respeito. O grafite começa com o nome – a letra é o coração da nossa cultura. Gosto de explorar a forma e a abstração, mas nunca quero perder essa base. Enquanto pudermos ler o nome, continuamos ligados às raízes da escrita. É também uma disciplina: conseguir inovar sem quebrar essa ligação fundamental é uma prova de mestria. A letra é o ponto de partida de tudo; para mim, nunca deve desaparecer completamente.
Você domina tanto a caligrafia quanto o figurativo. Essas duas linguagens visuais contam a mesma coisa ou mostram duas partes diferentes da sua identidade?
São dois dialetos da mesma língua. A caligrafia representa a estrutura, a disciplina, o ritmo – o lado analítico da minha personalidade. Os elementos figurativos, principalmente meus Bboys, fazem parte da tradição do grafite nova-iorquino. Combinar os dois é como adicionar um turbo a um motor: dá à obra uma profundidade extra. Às vezes eles se fundem; às vezes se opõem e essa tensão cria energia. No entanto, ambos expressam quem eu sou: alguém que cresceu na cultura hip-hop, que ama a forma e o movimento, mas que também busca o significado e a emoção além da letra.
Quando você pinta, uma das duas linguagens toma conta?
Depende. Às vezes, estou totalmente focado na letra, na geometria, no ritmo, e o resto está lá pra servir a esse objetivo; outras vezes, os elementos figurativos ou abstratos ditam o clima. Mas mesmo quando um domina, os dois compartilham a mesma gramática: movimento, equilíbrio, energia. Na minha mente, eu não os separo; simplesmente ouço o que cada peça precisa. É a obra que diz quando recuar, quando avançar, quando deixar o instinto guiar.
Você curte a liberdade da parede, mas também o desafio do formato reduzido. Sua relação com o gesto muda entre a rua e a tela?
Na parede, o gesto é físico, quase atlético. Você pinta com todo o seu corpo, e a luz, o espaço, a superfície, os sons… influenciam cada movimento. O ritmo da cidade entra literalmente na pintura. No ateliê, o gesto se torna mais íntimo, mais controlado. Você está mais próximo da matéria, das texturas, das nuances de cor. É a mesma energia, mas transposta para outra escala. Gosto dessa mudança; ela me mantém alerta. A rua me traz a força e o movimento; o ateliê, a concentração e a reflexão.
Na tela, você mostra uma abordagem mais abstrata, quase introspectiva. A mudança para o ateliê mudou a sua maneira de pensar sobre o grafite?
Na parede, tudo é rápido: a gente age, reage. Trabalhar no ateliê me fez desacelerar: ter tempo para pensar, observar, construir a profundidade camada por camada. Esse processo me fez perceber a complexidade do grafite, mesmo quando parece espontâneo, de analisá-lo, de explorar como o movimento, o ritmo e a estrutura interagem. Ao compreendê-lo mais profundamente, percebi as letras como uma expressão urbana, mas também como uma filosofia visual.
Seu trabalho em tela é outra dimensão da sua linguagem ou uma forma de condensá-la?
É tanto uma extensão quanto uma concentração. Na tela, posso explorar detalhes e transições sutis que uma parede não permite. É como um zoom: canalizar anos de movimento em uma única imagem. Mas também é outra dimensão, porque a relação com o espectador não é a mesma. Passamos tempo diante de uma tela; podemos descobrir camadas, nuances, significados que às vezes se perdem na instantaneidade da rua. Para mim, os dois fazem parte de um mesmo continuum: diferentes frequências de uma mesma vibração.
Como a energia e a cor dão forma ao seu trabalho?
A energia é o que me move em tudo que faço, herdada do hip-hop, do ritmo e da vida urbana. O dinamismo no meu trabalho fala de movimento, de ligações, de transformação. Quero que as minhas pinturas transmitam essa pulsação, essa vibração da vida. A cor está no centro dessa vibração: nasce primeiro da intuição, de uma necessidade emocional própria de cada peça, depois eu equilibro-a com a técnica – contrastes, luz, saturação. Busco menos a harmonia do que a intensidade: cores que se confrontam, explodem, “soam bem”, mesmo que desafiem as regras. Essa tensão entre instinto e controle mantém o trabalho vivo, nunca estagnado.
Qual é a importância do “movimento” das letras no seu trabalho? É uma forma de dança visual, herdada do breakdance?
Com certeza! O movimento é o centro da minha linguagem plástica. Fiz minha primeira peça em 1983, mas já fazia break há um ano. Até 1989, fiz breakdance e grafite ao mesmo tempo. Em determinado momento, tive que escolher e a pintura prevaleceu. As inúmeras batalhas de break que vivi moldaram minha maneira de pensar e deixaram sua marca no meu estilo — esse senso de ritmo, de confronto, de energia nunca me abandonou. Breakers, DJs, rappers, todos transformam o ritmo em movimento físico ou sonoro. Minhas letras fazem o mesmo: elas se dobram, se torcem, saltam… uma verdadeira coreografia. Seu fluxo, seu equilíbrio, seus contra-movimentos dão toda a dinâmica da obra. Mesmo nas minhas obras mais abstratas, esse ritmo permanece presente.
Suas composições parecem estar sempre em tensão entre controle e espontaneidade. O que você quer dizer, no fundo, com essa tensão?
Essa tensão é o próprio estilo. Nada realmente interessante nasce do controle total; nada duradouro surge do caos total. Meu trabalho está entre os dois: nessa busca pela harmonia sem perder a energia. Gosto quando uma peça parece um pouco instável, como se pudesse se desintegrar. Esse limite dá vida a ela. Essa é a minha visão da criação: a gente planeja, antecipa, mas também precisa saber soltar. É aí que algo verdadeiro aparece, no equilíbrio entre a intenção e o acaso.
O que te levou a essa nova direção inspirada na arte rupestre? O que você encontra nela?
A arte rupestre é a primeira linguagem visual da humanidade — o ponto de partida de tudo o que fazemos hoje como artistas. Ao trabalhar nessas novas telas, senti a necessidade de voltar às origens, à essência do traço. O grafite sempre consistiu em “se mostrar” e ser visto através de letras, assinaturas, personagens. E quando olhamos para as pinturas pré-históricas, é exatamente isso que encontramos: as primeiras tentativas de fixar um momento, de deixar um traço em uma superfície. Ao combinar a arte rupestre com meu estilo, conecto dois extremos de uma mesma linha do tempo. Um é primitivo e instintivo — talvez xamânico, espiritual, mas também informativo —; o outro é extremamente elaborado e codificado. O que encontro na arte rupestre é uma imediatidade, uma rudeza, uma pureza de intenção. Isso me leva de volta a questões essenciais: por que pintamos? Por que deixamos marcas? De onde vem esse impulso de marcar a parede? Trabalhar essas texturas — esses fundos que parecem pedra, essa progressão lenta dos primeiros traços até as peças completas, essa comparação entre arte rupestre e grafite contemporâneo — me ancora. Por um lado, o contraste é imenso, com dezenas de milhares de anos entre as duas práticas; por outro, elas dialogam perfeitamente. Isso me lembra que o grafite faz parte de uma necessidade humana muito antiga: afirmar a sua presença. Sob esse ângulo, essa orientação parece um retorno às origens.
Você usa alguns códigos da arte rupestre? Quais? Como?
Sim. Eu uso de propósito vários códigos visuais e estruturais da arte rupestre. A arte das cavernas geralmente funciona com uma forma de narrativa condensada: um movimento sugerido pela repetição, linhas mínimas que carregam um máximo de significado. Os elementos mais óbvios são os motivos clássicos: animais, caçadores, silhuetas, primeiros símbolos abstratos. Eu os crio com estêncil, ecoando a maneira como os pigmentos eram originalmente soprados ou estampados na rocha. Mas, além dos motivos em si, o que me interessa é a lógica que os sustenta: a sobreposição, o ritmo, a maneira de condensar uma cena em sinais. Também integro meus próprios hieróglifos e pictogramas. Alguns vêm do grafite, como os personagens, as figuras inspiradas em Vaughn Bodé ou a silhueta de um grafiteiro pintando um trem; outros remetem a temas mais contemporâneos, como discos voadores, extraterrestres, dinossauros ou esqueletos. Ao mesmo tempo, o fundo em “pedra” – minha maneira de evocar as paredes das cavernas – não é apenas um cenário. É um código em si mesmo: uma lembrança de que todas as nossas camadas modernas se baseiam em algo antigo. Quando pulverizo os motivos parietais sobre essa textura e o grafite emerge, faço com que as duas linguagens coexistam na mesma superfície. Uma não substitui a outra: elas dialogam. Em suma, não estou apenas a emprestar o vocabulário visual da arte parietal, estou também a retomar a sua energia: o impulso de marcar, de contar, de afirmar uma presença. E faço-a colidir com os códigos do grafite – evolução, construção, progressão estilística – para criar algo que parece ao mesmo tempo ancestral e contemporâneo.
Se você tivesse que resumir sua intenção artística em uma frase, o que diria?
Transmitir o ritmo, a energia e a identidade em uma linguagem visual baseada na letra, e dar vida a essa linguagem, fazendo-a evoluir.
O que você quer que a gente lembre do CAN2: o estilo, a técnica ou a mentalidade?
A mentalidade, claro! O estilo e a técnica são só meios – eles mudam, se adaptam. Só a mentalidade – ser sincero, continuar avançando, respeitar as raízes enquanto explora novas direções – define um grafiteiro. O grafite me ensinou a ser independente, a criar sem pedir permissão, a acreditar na minha própria linguagem. Se esse espírito continua visível no meu trabalho, então fiz o que tinha que fazer.






