Mundano: transformar cinzas em consciência

Transformar os vestígios do desastre em pigmentos: essa é a abordagem radical do artista brasileiro, que transformou a matéria poluída em uma linguagem visual, uma ferramenta política e um símbolo de resiliência.

Artista e ativista brasileiro, Mundano representa uma nova geração para quem criar é agir. Nascido em São Paulo, ele faz da rua seu ateliê e do real sua matéria-prima. Grafiteiro, militante e fundador do projeto Pimp My Carroça, ele devolve visibilidade e dignidade aos trabalhadores marginalizados, ao mesmo tempo em que questiona nossa relação com a cidade, a natureza e os resíduos. Símbolo de um artivismo profundamente enraizado no social e no ecológico, Mundano transforma lama, cinzas e resíduos em pigmentos, revelando a beleza no que testemunha a destruição. Por meio de suas obras e ações, ele nos convida a repensar o papel da arte: não mais como ornamento, mas como motor de consciência e transformação.

Você cresceu em São Paulo, uma cidade de contrastes. Como você começou a fazer grafite e como isso te influenciou?
Acho que isso vem do fato de eu ter nascido e crescido em São Paulo, numa área muito populosa. Mesmo que eu tivesse acesso a bairros mais chiques, sempre fui marcado pelos contrastes entre os lugares que eu frequentava: as avenidas, as comunidades, as favelas… Esse contraste fazia parte do dia a dia. O grafite e o tag me atraíram desde cedo: uma forma de expressão visível, livre, presente em toda parte. Aos poucos, eu quis repensar esses espaços de outra maneira. Comecei então a me interessar pelos contrastes da cidade – desde os catadores de lixo reciclável, que fazem o que a cidade não faz, até as marcas onipresentes. Essas oposições, em São Paulo, são ainda mais fortes por se tratar de uma metrópole imensa, poderosa, ávida, onde essa energia e essa ganância às vezes se transformam em destruição.

Você mencionou os catadores de lixo. Qual foi a importância desses encontros e como eles influenciaram sua visão da cidade e da arte?
Ao pintar em bairros carentes, ao sair da minha zona de conforto e ao intervir em espaços inóspitos, muitas vezes cruzei com catadores de lixo: debaixo de pontes, em áreas degradadas ou abandonadas. Esses encontros foram marcantes, pois era ali que a arte podia se integrar e beneficiar aqueles que realizam um trabalho essencial. Essas pessoas têm uma visão perspicaz e lúcida da vida; elas devolvem valor à cidade através do que recolhem dela. Para mim, elas foram verdadeiros professores.

Como surgiu o projeto Pimp Natural? Por que outros grafiteiros e taggers se interessaram por ele, e em que momento você percebeu que um projeto assim não poderia ser construído sozinho?
O grafite, assim como o trabalho dos catadores, continua sendo um universo marginalizado. Ambos existem à margem do sistema: o grafite, porque continua sendo ilegal e fora do grande mercado de arte; os catadores, porque seu trabalho, embora indispensável, é frequentemente ignorado ou menosprezado. E é assim não só no Brasil, mas na maioria dos países do Sul Global: a maior parte da reciclagem, já muito limitada, passa pelas mãos dos catadores e catadoras. São eles os verdadeiros protagonistas da reciclagem no mundo, mesmo que não sejam reconhecidos e continuem vivendo nas ruas.

Ao trabalhar com os catadores, você explorou o valor dos resíduos no espaço urbano. Depois, com os pigmentos provenientes de crimes ambientais, você abordou outra forma de resíduo: a destruição ecológica. Como essas duas dimensões do “restante” se unem na sua prática?
Nós, seres humanos, produzimos resíduos o tempo todo. Tudo o que nos rodeia – objetos, embalagens… – acaba se transformando nisso. Uma lata de spray não tem nada de sustentável: contém gás, ferro, pigmentos químicos, plástico… um objeto complexo demais para um único uso. Pintar já é, por si só, produzir um novo resíduo. Essa tomada de consciência me levou a refletir sobre a pureza dos materiais, sobre seu ciclo, e a ir a campo, a locais marcados por crimes ambientais. Em Brumadinho, por exemplo, o lodo tóxico do maior desastre socioambiental do Brasil se tornou para mim um pigmento, um meio de testemunhar. Da mesma forma, as cinzas de uma floresta queimada ou o petróleo de um naufrágio podem ser transformados para pintar, como faziam os povos indígenas. Também trabalho com pigmentos naturais, geopigmentos, como a terra, que às vezes encontro em caçambas de entulho. São Paulo, em constante mutação, esconde sob seu concreto uma matéria viva que eu recupero para devolver-lhe sentido e beleza.

Em 2021, você usou cinzas da floresta para pintar um prédio em São Paulo. Este ano, você estará na COP do Brasil, com várias ações envolvendo essas cinzas. Fala pra gente sobre esses projetos…
Quanto mais eu exploro o impacto do meu trabalho e me interesso pelas reflexões em torno da COP, mais minha compreensão se aprofunda: vivemos um período breve e crítico em que a humanidade está destruindo seu próprio ambiente. Se olharmos para os milhares de anos de presença humana na Terra, percebemos que, a partir da Revolução Industrial, tudo se acelerou: esgotamento dos recursos, escassez de água doce, poluição… A destruição começou a avançar mais rápido do que a criação. É por isso que acredito que um retorno às origens é essencial, inclusive na maneira de criar. Durante milênios, usamos pigmentos naturais; hoje, diante dos pigmentos sintéticos, voltar a esses materiais originais ganha um significado simbólico poderoso. Essa reflexão me levou a repensar minha prática: reduzir o uso de latas de spray, ou até mesmo deixar de usá-las completamente. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de usar cinzas provenientes de diferentes biomas brasileiros. Depois de pintar um grande prédio em homenagem aos bombeiros florestais, sobrou um pouco de cinza. Queria compartilhar essas cinzas vindas da Amazônia, do Pantanal, do Cerrado e da Mata Atlântica com outros artistas para que eles transformassem esse material de destruição em beleza, em poesia, em testemunho, revelando assim uma forma de pureza. Como a COP é um espaço restrito, muitas vezes inacessível à população, vi nesse projeto uma maneira de estar presente de outra forma, de fazer com que a voz dos artistas fosse ouvida. Este ano, a conferência vai rolar no Brasil, em Belém. Lá, vamos apresentar uma exposição reunindo as cinzas dos biomas do país, símbolo de uma possível reconstrução do mundo. Pois a crise climática já está aqui: secas, inundações, ondas de calor… Os impactos são reais, e agora precisamos aprender a atenuá-los e a nos adaptar.

O que essas cinzas representam simbolicamente para você? Na verdade
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as cinzas vão carregar as vozes de diferentes cantos do mundo. Haverá várias oficinas antes da COP, onde essas obras serão criadas antes de se juntarem à coleção existente. É uma ideia muito bonita de artivismo coletivo, uma forma de assumir uma posição firme. Graças a isso, viremos de diferentes lugares para organizar oficinas com ativistas, artistas e pessoas de vários países, especialmente no âmbito do World Artivism Convening, que está sendo realizado pela segunda vez no mundo. Levaremos esses pigmentos para que outras pessoas, outros povos, também possam fazer ouvir suas vozes. Pois a cinza não se limita à floresta ou à árvore queimada. Ela provém de todo um bioma, de um conjunto de vidas extremamente diversas, e também pode evocar muitos outros temas além da destruição. Assim, ela se torna um pigmento importante, portador de inúmeras questões essenciais para a nossa época.

Dá uma olhada
no Mundano:
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