Museu do Grafite de Miami, a voz do movimento
Muito mais do que um espaço de exposição, esse museu diferente dos demais quer ser um lugar para celebrar os artistas e ensinar a história do grafite autêntico.

Wynwood, antigo bairro industrial de Miami Beach transformado em uma galeria a céu aberto por inúmeros grafiteiros, atrai hoje milhões de fãs de arte urbana. O lugar ideal para abrir um museu inteiramente dedicado não à arte de rua, mas sim ao grafite, como explica Alan Ket, cofundador da instituição junto com Alison Freidin, que nos foi apresentado pelo amigo dele, The Real Kay One.

Você é um verdadeiro filho do grafite…
Sou de Brooklyn e, nos anos 80, o grafite estava em toda parte: nas ruas, nos trens, nos parques… como se fossem quadrinhos nas paredes. Comecei a fazer grafite aos 16 anos – o que já era bem tarde em Nova York! – com pequenas turmas como a AOK (All Out Kings em Manhattan), RIS (Rockin’ It Suckers no Queens e no Brooklyn) e os SV (Subway Vandals no Bronx). De 1987 a 1993, eu comia grafite, respirava grafite, vivia grafite. Em 1994, eu tinha 23 anos, minha filha nasceu. Então me tornei um adulto responsável e parei de pintar… Diante de REAS – cujo nome verdadeiro é Todd James – ou Ghost, artistas com uma técnica incrivelmente fluida, eu sabia que não tinha nenhum talento de verdade.

Mas você não se afastou do movimento por causa disso…
Eu estudava jornalismo na faculdade e era apaixonado por grafite e, de maneira mais geral, por hip-hop e rap. Percebi que as culturas urbanas eram vividas, mas não eram contadas. Então criei uma revista dedicada a elas, a Stress, com uma edição em espanhol chamada Hip-Hop Nation. O que eu queria era contar histórias que não estavam sendo contadas. Colocávamos o Jay-Z ou o Eminem na capa para o grande público e, lá dentro, falávamos da galera Lowlife, do Phase 2 ou do Tracy 168! Isso funcionou muito bem por 6 anos. Depois, publiquei e escrevi biografias de grafiteiros e livros sobre grafite, como Graffiti Planet, Street Art e Graffiti Tattoo. Eu não era mais grafiteiro, mas tinha me tornado o defensor do movimento.


5. Stan153, Sem título, 1984.
Como surgiu a ideia de abrir um museu?
Em 2006 ou 2007. Trabalhando no mundo da moda e do vídeo, abri portas para artistas como Futura, Kaws, JonOne… em grandes projetos. Na mesma época, a prefeitura me processou por ter pintado trens! Como eu já era conhecido, o caso ganhou proporções enormes. Para pagar meus advogados e as custas judiciais, pedi aos meus amigos artistas que me dessem telas, que eu coloquei à venda. Isso funcionou muito bem e passei a ser reconhecido como alguém capaz de organizar grandes exposições. Assim, trabalhei em Paris com a Fundação Cartier para o evento “Born in the Street”. Mas percebi o quanto as instituições não se importavam realmente com o grafite e com quem o mantinha vivo. Concluí que a única maneira de os artistas obterem o respeito que mereciam era o movimento ter seu próprio museu… mesmo que fosse uma loucura. Desde então, organizamos cerca de trinta exposições coletivas temáticas e mostras individuais.

Não é um pouco paradoxal ter um museu dedicado à arte de rua?
Alguns podem pensar assim… e até dizer isso. Mas isso é não entender que, embora o grafite pertença à rua, às paredes, aos trens…, é importante contar sua história e oferecer aos artistas um lugar onde possam falar sobre seu trabalho. Os pioneiros do movimento têm mais de 60 ou 70 anos e já não estão na ativa. O museu é o lugar para homenageá-los, traçar sua trajetória e educar o público. É importante que os milhões de pessoas que vêm a Wynwood também possam descobrir mais sobre os artistas e o movimento. Temos que ser responsáveis pela nossa própria história e pela nossa própria maneira de contá-la.


8. Mais do que um local de exposições, o Museum of Graffiti é um espaço de descobertas e de história.
Você dá muita importância à sua independência?
Sim! Hoje em dia, muitos museus dependem de dinheiro público, mas o que acontece quando as verbas acabam? Eles fecham as portas. Nós, por outro lado, queremos continuar abertos! Ainda mais porque o governo nunca foi amigo dos grafiteiros. Seria contraditório que aqueles que queriam nos colocar na prisão nos apoiassem. Atualmente, o governo é antiprogressista e anticultura, mas isso não nos afeta. Assim, pagamos nossos 20 funcionários toda semana, já que nosso financiamento não depende do governo, mas da bilheteria, da loja, dos eventos que organizamos e dos nossos parceiros privados.
Não é difícil trabalhar com empresas?
Não há mágica nenhuma, o dinheiro tem que vir de algum lugar! Nossos parceiros privados acreditam na nossa visão e usamos o dinheiro deles para fazer um bom trabalho. Às vezes demora um pouco para convencê-los, mas quanto mais tempo estamos aqui, mais avançamos, mais pessoas entendem o que estamos fazendo — inscrever esse movimento na história global da arte — e querem nos apoiar.
Não deixe de visitar
o Miami Museum of Graffiti
Todos os dias, das 11h às 18h
276 NW 26th St, Miami, FL 33127, Estados Unidos
museumofgraffiti.com
Instagram: @museumofgraffiti







