Kuêio: o traço, o riso e a revolta
Por trás do humor, das cores vivas e da aparente leveza de seu personagem de orelhas compridas, Kuêio desenvolve uma obra marcada pela crítica social e por uma reflexão profunda sobre o grafite. Entre irreverência, memória e busca pessoal, o artista defende, mais do que nunca, a liberdade do gesto.
Nas ruas de São Paulo, um coelho de orelhas compridas aparece onde menos se espera. Às vezes atrevido, às vezes comovente, ele vive num universo onde o humor se mistura com a poesia e onde cada parede vira palco de uma reflexão sobre a nossa época. Herdeiro tanto da pixação quanto da Street Art, Kuêio transforma o grafite em uma linguagem que é ao mesmo tempo popular e engajada. Inspirado pelas periferias brasileiras, ele transforma suas obras em fábulas urbanas que questionam as desigualdades, os preconceitos e as contradições da sociedade. Sem nunca abrir mão da leveza, ele lembra que a arte ainda pode abalar os olhares, fazer rir… e despertar as consciências.
O coelho virou a sua marca registrada, mas, acima de tudo, é um personagem. Em que momento ele passou de um simples desenho para um verdadeiro alter ego?
No grafite, é natural — e até cultural — que um personagem se torne um alter ego. Essa ideia de “marcar território” faz parte integrante da cultura do grafite: o artista faz questão de deixar claro que foi ELE quem passou por ali. Então, acho que meu personagem é meu alter ego desde o início, desde que as pessoas o viram na rua e o associaram espontaneamente a mim. Isso aconteceu naturalmente.
Seu coelhinho é engraçado, atrevido, às vezes violento, mas raramente inocente. O que ele te permite contar que o próprio Kuêio não poderia dizer?
Absolutamente tudo. Eu uso principalmente o humor e, às vezes, o cinismo para abordar essas questões, seja para expressar algo com que discordo na cultura do grafite ou, de forma mais ampla, na sociedade. Percebi que muitas pessoas aceitam melhor as questões levantadas por uma obra do que quando elas são formuladas diretamente pelo próprio artista, e dedicam mais tempo para refletir sobre elas.
Muitas vezes a gente vê os mesmos personagens em situações diferentes. Será que, com o passar dos anos, você tá construindo uma espécie de crônica da periferia de São Paulo?
Eu nunca tinha visto as coisas por esse ângulo [risos]. Quando retrato a periferia, geralmente é com nostalgia, relembrando os anos de 1980 a 2006, quando morava lá e participava de corpo e alma da vida nas ruas. Hoje, meu olhar é mais distante: ele se alimenta das minhas visitas e das histórias de quem ainda mora lá. Passei mais de dez anos em Minas Gerais, uma região que me marcou profundamente, a ponto de inspirar meu nome, Kuêio. Um dos meus grafites mais populares, “Proibido fazer grafites em apostas esportivas”, faz uma brincadeira com um jogo de rua típico do Triângulo Mineiro pra denunciar o crescimento das apostas online. Não moro mais na periferia e me considero um grafiteiro irreverente, justamente porque meu estilo de vida é bem diferente do dos meus colegas em São Paulo. Hoje me sinto mais próximo de um cara tranquilo do interior do que de um morador dos bairros populares paulistas. Então, não tô tentando fazer uma crônica social. Em vez disso, tento oferecer pro espectador uma fuga do caos, da pressão e da ansiedade.
Seu trabalho parece sempre brincar com as contradições: ternura e violência, humor e crítica social, a rua e o mercado de arte. É uma forma de contar a complexidade do Brasil contemporâneo?
Eu encontrei essa maneira de fazer por dois motivos. A primeira é para me comunicar melhor com meu público: as pessoas recebem muito melhor as mensagens com duplo sentido e refletem mais sobre elas. Isso enriquece meu trabalho. A segunda é representar o Brasil em toda a sua diversidade, mas também me representar a mim mesmo: artista paulista e mineiro, homem e mulher, hetero e gay, artista e grafiteiro, urbano e rural, racional e religioso, trabalhador autônomo totalmente indiferente às tendências do mercado. Meu trabalho é multifacetado. É uma mistura porque o Brasil é multifacetado.
Desde que você se assumiu, seu trabalho ganhou uma dimensão mais pessoal. Será que pintar virou uma forma de se reapropriar da sua história?
A cada ano que passa, a gente se conhece um pouco mais. Acho que os artistas têm o privilégio de viver isso com mais liberdade, porque estão menos presos às convenções sociais. Eu me identifico com isso. Eu me permito me conhecer melhor, e isso acaba alimentando minha arte. Ou talvez seja o próprio ato de criar que traz algo à tona dentro de mim e me permite me entender melhor? Não sei… Mas essa conexão que me permito estabelecer entre a criação artística e o autoconhecimento torna, de fato, meu trabalho cada vez mais pessoal.
Como você vê hoje aquele garoto que pintava ilegalmente nas paredes de Minas Gerais ou talvez até mesmo em São Paulo?
Pra ser sincero, não me lembro de ter pintado ilegalmente nas ruas de São Paulo [risos]. Quando cheguei aqui, a hostilidade da polícia e a agressividade do cenário urbano me desanimaram a fazer intervenções ilegais nessa cidade. Sou uma pessoa muito pacífica e não quero abrir mão da minha tranquilidade só pra provar alguma coisa. Essa parte da minha história se construiu no Minas Gerais. Foi lá que comecei a fazer pixação e realizei várias intervenções ilegais. Fui preso várias vezes e, de fato, sofri violência policial. A cidade, porém, parecia muito mais aberta, muito mais receptiva, algo que não sei explicar direito… Hoje, sinto uma certa nostalgia. Gostaria de voltar a fazer, nem que seja de vez em quando, uma intervenção ilegal. Olhar para uma parede e simplesmente fazer o que me der na telha. Pra mim, é uma forma de dar um presente pra cidade. Mas não aqui, em São Paulo [risos]!
Qual é a pergunta que ninguém nunca te faz, mas que você adoraria responder?
Nossa, essa é difícil! Talvez: o que tem mais valor: um grafite imperfeito, feito inteiramente à mão livre, ou uma reprodução perfeita obtida graças à tecnologia? Minha resposta é simples: o grafite imperfeito. Aquele que distorce a anatomia, mas carrega o gesto. Aquele que se afasta da cópia para deixar surgir o traço, a cor, a tentativa. Esse é humano. E a arte é feita por seres humanos. Num mundo obcecado pelo traço, pela cor e pela composição perfeitos, as máquinas estão ganhando cada vez mais espaço. Primeiro com reproduções fiéis de fotografias, depois com imagens geradas por inteligência artificial, ampliadas por um projetor ou por meio de um óculos de realidade virtual. Já vi até impressoras de parede. O grafite sempre foi um ato de transgressão. Talvez a próxima tenha que ser contra essa dependência da tecnologia. Estou falando aqui do grafite, da arte na sua forma mais pura, não dos murais comerciais. Precisamos trabalhar e é normal usar essas ferramentas pra economizar tempo. Mas e a arte que vem da alma? Aquela que impede a humanidade de se perder no consumo excessivo. O artista tem esse papel de preservação. Se ele abrir mão dessa essência, vai se misturar ao sistema e perder a capacidade de reconciliar o ser humano consigo mesmo.
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o Kuêio: @kueio.art








