Speedy Graphito sobe ao palco do Comoedia
Por meio de “Arrêt sur images”, o artista reúne os fragmentos de uma obra que muitos acham que conhecem, mas que na verdade nunca exploraram de verdade.
Tem certas imagens que ficam gravadas na cabeça. Elas atravessam décadas, se impõem na memória coletiva e, às vezes, acabam ofuscando todo o resto. O Speedy Graphito sabe bem disso. No entanto, há mais de quarenta anos, ele segue na contracorrente de sua própria lenda, empenhando-se em desafiar as classificações. Pintura, escultura, instalação, vídeo… sua obra, vasta, livre e surpreendente, rejeita tanto as linhas retas quanto as categorias muito restritas. Observador atento das mudanças culturais, sociais, tecnológicas e visuais que marcaram as últimas quatro décadas, ele nunca deixou de captar esses sinais para traduzir em seu trabalho as preocupações que o movem… em eco às nossas.
O título da exposição, “Arrêt sur images”, remete tanto ao cinema quanto à memória. Ao olhar para quarenta anos de criação, quais são as imagens que ainda hoje continuam te acompanhando ou te assombrando?
As imagens que me acompanham são aquelas que alimentaram minha evolução artística. Eu funciono muito por ciclos. Algumas séries são interrompidas porque minha atenção se volta para outro lugar, mas depois voltam de forma cíclica sob outra forma, porque fazem parte de mim e continuam sendo territórios de exploração dos quais nunca me afastei totalmente. Às vezes, até faço com que várias séries dialoguem dentro de uma mesma obra. Tudo isso me acompanha o tempo todo na minha busca. Mas, quando a gente olha para quarenta anos de criação, também percebe a diferença que pode existir entre a trajetória real de um artista e a imagem que o público guarda dele. O que mais me incomoda é justamente a percepção que as pessoas têm do meu trabalho. Muitas vezes, ela continua sendo muito parcial. Alguns me descobriram nos anos 1980 e continuam me associando às minhas personagens daquela época. Outros me conheceram pela internet e não sabem de nada do que veio antes. Muitos ainda me veem como um grafiteiro que pinta Mickey Mouse, quando isso representa só uma parte minúscula da minha trajetória. Essa também é uma das razões por trás dessa retrospectiva: mostrar todo o caminho percorrido e a diversidade de um trabalho que não para de evoluir.
O que significa fazer uma retrospectiva para um artista que continua criando e experimentando?
É justamente como dar um pause na imagem! Estou em uma dinâmica de criação constante e raramente paro para rever o que já fiz. Estou sempre de olho na próxima tela, aquela que vai me levar à seguinte. No dia a dia, raramente paro para observar o que já fiz. No ateliê, muitas vezes vejo minhas obras rapidamente colocadas no chão antes de serem embaladas, mas raramente penduradas e bem iluminadas. Esse exercício é, portanto, importante pra mim, mas também pro público. Ele permite colocar as obras em perspectiva, mostrar as conexões que existem entre os diferentes períodos e entender melhor a realidade da minha trajetória. Como gosto de trabalhar com a história da arte, dialogando com artistas e movimentos que vieram antes de mim, me pareceu interessante aplicar esse olhar ao meu trabalho, contar as diferentes etapas, as evoluções, as rupturas, mas também as dificuldades que encontro para revelar toda a sua diversidade.
Essa não é sua primeira retrospectiva. O que diferencia “Arrêt sur images” das anteriores?
De fato, não é nem a primeira nem a última. Sempre tento escolher obras diferentes, organizar a exposição de acordo com o local, a arquitetura dele e as possibilidades que oferece. Hoje, tenho mais vontade de mostrar todo o meu trabalho com uma abordagem mais museológica. “Arrêt sur images” faz parte dessa intenção. Reuni nela peças de coleções particulares e públicas, outras que nunca foram expostas, outras ainda criadas especificamente para essa retrospectiva, instalações… pra mostrar quarenta anos de pesquisa.
Como você concebeu essa retrospectiva?
Eu concebi essa retrospectiva pensando no local. Como o Comoedia é um antigo cinema, imaginei essa retrospectiva como um filme em que cada espaço é uma sequência e cada obra, um plano, para uma progressão narrativa dos diferentes períodos que marcaram minha trajetória. Pra mim, o interesse de um trabalho artístico não está tanto na obra em si, mas no percurso que ela revela, já que uma tela é só um fragmento de um todo maior. “Arrêt sur images” destaca, assim, as transições de um período para outro, num universo repleto de lembranças, histórias e curiosidades. Durante as visitas guiadas, percebi, aliás, o quanto contar a origem de uma pintura transformava o jeito como as pessoas a viam. Os visitantes não estão mais apenas diante de uma obra: eles também descobrem o que a fez nascer, o que a precedeu e o que veio depois dela.
Como você aproveitou os diferentes espaços?
Sempre concebi minhas exposições de acordo com o local que as recebe, e essa retrospectiva não é exceção. Aproveitei os diferentes espaços do Comoedia como se fossem fragmentos da vida. Cada espaço abriga uma história, porque sempre há elementos da minha experiência de vida que se refletem nas minhas obras. Na rotunda, por exemplo, criei uma instalação pensada especificamente para a arquitetura em forma de meia-lua. Lá, apresento meu trabalho mais recente, com faixas coloridas e efeitos ópticos, com essa ideia de movimento e de imagens que parecem se repetir infinitamente. Em torno de “Guernica”, imaginei um cenário que retoma alguns elementos do quadro para prolongar a obra no espaço. Eu queria desenvolver essa dimensão imersiva pra dar ao visitante a sensação de entrar na pintura, em vez de só ficar olhando pra ela. Também recriei uma loja inspirada nos anos 1980, no estilo da primeira loja Speedy, com objetos e brindes acessíveis a todo mundo.
Por que essa loja era importante pra você?
Costumo pensar na exposição “Les Media Peintres”, que rolou em Rennes em 1986. Quando voltei pra cidade pra fazer o M.U.R. em 2021, muita gente ainda falava disso pra mim. Fiquei impressionado ao ver o quanto esse período ainda estava vivo na memória deles. Alguns ainda têm os jaquetas, os broches e as camisetas daquela época. Aliás, foi isso que me levou a tirar do armário algumas peças que estavam guardadas em caixas há quase quarenta anos. Prefiro que elas sejam usadas por fãs do que ficarem guardadas no meu ateliê. É importante pra mim continuar perto de todos aqueles que nem sempre conhecem história da arte, não frequentam museus, mas me apoiam desde o começo. Foi esse público que me apoiou todos esses anos. Para mim, ele é extremamente importante.
Como mudou a tua relação com a imagem e com o que você transmite através da tua obra?
Como todo mundo, minha relação com a imagem mudou com as novas ferramentas de divulgação e recepção. A internet transformou profundamente a nossa maneira de ver as coisas. A gente se depara com um fluxo constante de imagens e dedica muito menos tempo a elas do que antes. É claro que isso também influencia o meu olhar. Tudo o que é novo desperta minha curiosidade e, no meu trabalho, falo tanto das minhas preocupações quanto da sociedade em que vivo. Eu me vejo mais como um decodificador. Tento interpretar a época sem tomar partido, deixando que cada um resolva por conta própria as questões que levanto nas minhas obras. Nunca é um discurso fechado: cada um tem sua interpretação, dependendo do que está procurando. Aliás, como o olhar muda com o tempo, uma mesma imagem costuma suscitar leituras diferentes, dependendo de quem a vê, mas também do momento em que a descobre.
Como você avalia a sua evolução?
Antes mesmo das minhas primeiras exposições, eu já criava cenários para espetáculos bem diferentes uns dos outros. Isso me obrigou a mudar constantemente de linguagem visual e, sem dúvida, influenciou a minha maneira de abordar a pintura. Mas, desde o início, procurei não me limitar a um estilo só, pra não ficar restrito a uma única forma de expressão. Desde então, nunca parei de explorar novos caminhos… Então, sinto que evoluí, mas não acho que tenha chegado ao fim! Pra mim, não tem começo nem fim, só uma continuidade. Com o tempo, ganhei confiança e talvez mais sensibilidade. Sinto que consigo transmitir melhor certas emoções e dar mais clareza ao que procuro expressar.
Tuas obras muitas vezes não são fáceis de entender de cara…
Eu nunca busquei a facilidade. Gosto que a compreensão de uma obra não seja imediata; que exija um certo envolvimento. Dá pra perceber alguns elementos na hora, outros só aparecem com o tempo. Pra mim, a relação com a arte se constrói ao longo do tempo. Essa também é uma das razões pelas quais escolhi como título “Arrêt sur images”. Claro, tem a referência ao cinema, em eco à história do Comoedia. Mas também há esse convite para desacelerar, para reservar um tempo para observar. Num mundo saturado de imagens, eu queria criar um espaço onde a gente pudesse parar por um instante e se deparar com elas de uma maneira diferente.
O que você gostaria que o visitante (re)descobrisse ao sair desta exposição?
Eu gostaria que ele descobrisse o artista além da imagem de grafiteiro que talvez tivesse em mente ao entrar. Por muito tempo, fui associado ao grafite ou a certas imagens que se tornaram emblemáticas. Isso faz parte da minha história, claro, mas é só um fragmento. Muitos conhecem assim uma parte do meu trabalho, às vezes até um período específico, mas não sabem nada do resto. Essa exposição permite justamente avaliar uma trajetória construída pela experimentação, pelas mudanças de rumo e pela curiosidade. “Arrêt sur images” também é uma maneira de colocar esses diferentes períodos em perspectiva e mostrar que quarenta anos de criação nunca se resumem a algumas imagens.

A opinião de Anna Vlaminck, responsável pela galeria de arte Le Comoedia
Qual foi o teu papel na exposição “Arrêt sur images”?
Como o Speedy teve carta branca para conceber essa retrospectiva do jeito que quisesse, meu papel consistiu principalmente em ajudá-lo na organização e na montagem. Passei, assim, uma semana muito agradável, durante a qual ele contou a história por trás das obras apresentadas, além de todas as histórias e curiosidades relacionadas a elas, que agora eu compartilho com os visitantes. É isso que torna essa retrospectiva particularmente fascinante: a gente não descobre só as obras, mas também tudo o que as fez nascer e tudo o que as envolve.
Como o Speedy Graphito montou o percurso da exposição?
O visitante é recebido por uma obra monumental que representa uma lata de tinta em spray, que já dá o tom do lugar. Nas vitrines, o Speedy também reuniu um acervo pessoal raramente exibido: cartões-postais dos anos 1980, foto do seu primeiro mural, foto da sua primeira exposição, o logotipo da missão espacial Altaïr que ele criou, objetos ligados a diferentes fases da sua trajetória… Verdadeiros tesouros para quem o acompanha há muito tempo. Esses arquivos, aliás, dão o tom da exposição. Speedy não apresenta simplesmente uma sucessão de obras: ele constrói uma narrativa. Ele faz seu próprio cinema. É diretor, roteirista, ator, cenógrafo, editor… Ele até pensou nos efeitos especiais.
O que mais te marcou nessa retrospectiva?
Fiquei especialmente surpresa com uma das primeiras obras da série “Pixel art”, onde dá pra perceber uma versão revisitada de *Une baignade à Asnières*, de Georges Seurat. À primeira vista, a gente vê a imagem como uma composição digital. Mas, quando a gente se aproxima, descobre que cada pixel foi trabalhado com pincel. Essa presença muito física da pintura cria uma leitura totalmente diferente da obra. Também achei fascinante ver o diálogo entre referências extremamente diversas, da história da arte à cultura popular. A gente passa de Dalí a Bob Esponja, de Matisse aos Pink Floyd, da Branca de Neve a Keith Haring… Também curti as obras pintadas em cercas, um suporte usado há muito tempo nas ruas. Essa liberdade nas referências, nos suportes e até nas técnicas – litografia, gravura, aquagravura, digigrafia… – diz muito sobre a maneira como ele vê o mundo. Dá pra perceber o quanto o Speedy Graphito se reinventa o tempo todo, sem nunca se deixar limitar!
O que você acha do trabalho do Speedy Graphito?
O que mais me impressiona no trabalho dele é a amplitude. A gente costuma conhecê-lo por algumas imagens icônicas, mas essa retrospectiva revela uma obra muito mais vasta. Os visitantes ficam fascinados ao descobrir a história por trás das obras, os encontros que as inspiraram e as referências que permeiam cada uma delas. Muitos saem de lá surpresos com a amplitude do trabalho dele e com a diversidade de caminhos que ele explorou ao longo das décadas.
© NLCProd
A não perder
: Retrospectiva Speedy Graphito
Até 26 de setembro de 2026
De quinta a sábado, das 14h às 18h
Galeria de arte Le Comœdia
35 rue du Château 29200 Brest
artcomoedia.fr
Instagram: @comoedia_brest
© Violaine Pondard / IG / Speedy Graphito / Cortesia da Galerie d’Art Le Comoedia








