Mag Magrela, o corpo em resistência

Figura incontornável da cena urbana contemporânea, Mag Magrela vem traçando, há mais de quinze anos, um caminho singular, na encruzilhada entre o íntimo e o político.

Nascida em São Paulo, essa artista autodidata transforma as paredes em espaços de expressão onde ganham vida figuras femininas poderosas, vibrantes, quase mágicas. Seu traço, imediatamente reconhecível, carrega em si a energia crua da rua, mas também uma profundidade simbólica alimentada por suas múltiplas raízes, entre a herança portuguesa e a cultura brasileira. Na obra de Mag, nada é estático: do grafite à performance, da pintura à poesia, seu trabalho se desdobra como uma linguagem em constante mutação. De São Paulo a Paris, passando por Nova York ou Amsterdã, suas intervenções marcam tanto as paisagens urbanas quanto as mentes por sua relação com o corpo, com a rua e com a criação, um universo onde a intuição, o vivido e o invisível dialogam sem filtros.

Qual foi o momento decisivo que te levou a passar dos desenhos pessoais para as paredes da cidade?
Pintar na rua me fez voltar a desenhar. Passei alguns anos afastada dessa prática. Entre os 18 e os 23 anos, eu estava focada nos estudos, em como ganhar dinheiro e sobreviver. Ser artista nunca foi uma possibilidade real na minha vida. Até o dia em que passei por uma grande crise existencial e fui em busca de algo que realmente desse sentido ao fato de estar viva. Tive o privilégio de morar com minha mãe, então todo o dinheiro que ganhava com bicos pude investir na minha arte.

De que forma São Paulo, com sua energia e seus contrastes sociais, influenciou o teu olhar e a tua maneira de criar?
São Paulo me tornou obsessiva, focada e me levou a buscar um estilo artístico único. Como se destacar em uma cidade com tantos bons artistas? Uma cidade cheia de regras e restrições onde, durante anos, era proibido pintar na rua, onde nossas paredes eram apagadas pela prefeitura. Uma guerra entre a lei e os artistas. Isso influenciou tanto o traço rápido e direto nas paredes quanto a escolha de um número limitado de cores e materiais.

Para Mag Magrela, a arte e as linguagens artísticas são ferramentas para dar forma ao impossível, ao inimaginável, ao oculto, a tudo aquilo que ainda escapa à compreensão.

As figuras femininas se tornaram centrais no teu trabalho. O que elas representam simbolicamente?
Essas figuras são uma extensão de mim mesma: algumas são autorretratos, outras são inspiradas em outras figuras femininas. Acho o corpo da mulher mais bonito, mais poético, carregado de significado e simbolismo. Para mim, o corpo feminino é um símbolo de resistência, força e intuição. Ele carrega, nas marcas na pele e na alma, toda a história da humanidade. Estar viva e resistir desde a infância a tantas provações me leva a celebrar e valorizar esse corpo. É também um desejo profundo de mudar o olhar que se tem sobre ele: hipersexualizado, frágil, padronizado, subestimado.

A nudez aparece com frequência nas tuas obras, mas foge aos códigos tradicionais de representação. Como você define essa abordagem do corpo?
Habitar um corpo feminino, em um momento da minha vida, começou a me causar muito desconforto, principalmente por causa do desejo de homens mais velhos diante de um corpo em transformação, mas também pelo fato de ser definida pelo apelido de “a magrinha”, não de forma carinhosa, mas como uma forma de humilhação. Essa confusão começou cedo, e eu não sabia se realmente gostava de ser mulher. Eu sentia que podia fazer tudo o que quisesse, mas a sociedade insistia em me fazer acreditar no contrário, simplesmente porque eu habitava um corpo feminino. Fui ensinada a ser um certo tipo de mulher para receber atenção. Fui ensinada a odiar meu corpo, minhas diferenças – sempre falta alguma coisa para agradar à sociedade patriarcal do homem branco. Fui ensinada a servir. Desenhar mulheres desproporcionais, com corpos fora do padrão, me liberta e liberta todas e todos que se reconhecem no meu trabalho.

Com Mag Magrela, a arte se torna um gesto vital, instintivo e profundamente enraizado no corpo.

Você começou no grafite. Como sua relação com o tempo e com a criação evoluiu desde então?
O Mag do passado era sincero; a pessoa que sou hoje também o é. Tudo o que me afetava, me inspirava e me estimulava se expressava com a verdade daquela época. Alguns temas ainda me pertencem, outros não, e novos surgiram. Não sei se “evoluir” é a palavra certa, mas a mudança faz parte de mim e estou muito aberta a ela. Meu corpo, minha mente e minha sensibilidade passam por um processo de transformação, e isso influencia minha arte, minhas pinceladas, minha voz… e até mesmo minha capacidade física de carregar um tijolo.

Nos últimos anos, você vem explorando práticas mais contemporâneas, como a performance. O que esse meio te oferece que a pintura mural não permite?
Para mim, usar outras linguagens enriquece meu trabalho. Isso me leva a explorar outros sentidos, a estimular o corpo de maneira diferente – uma energia vibrante que não poderia ser pintada, mas apenas representada. É a possibilidade de encarnar essa ideia artística. É também a oportunidade de usar outros elementos, como a criação de máscaras e figurinos. É pensar o mundo como um suporte artístico, não apenas como uma tela em branco.

Como o teu próprio corpo entra em cena nas tuas performances?
Fico sempre ansiosa só de pensar em usar o meu corpo. A vida é tão curta para tudo o que ainda quero produzir. Esse corpo que usamos é emprestado e tem uma duração limitada. Para mim, usar meu corpo feminino é celebrar a vida, a força, o poder e encenar outras narrativas além daquelas que lhe são impostas. É mostrar que somos capazes de muito mais.

Na sua prática, Mag Magrela usa a arte para dar forma ao invisível e tornar perceptível o que ainda não pode ser nomeado.

Seu trabalho transita entre o espaço público e as instituições. Como você lida com essa transição entre a rua e o circuito da arte contemporânea?
Cada espaço tem seu valor de influência e sua importância. São experiências distintas, com propostas diferentes, que se reforçam mutuamente sem se anular. Pintar na rua é, acima de tudo, a reação das pessoas, a troca direta e sincera; é usar o corpo no limite do tempo e das escalas. Estar nos espaços de arte me faz refletir de outra forma sobre o meu trabalho: como apresentá-lo, construí-lo e transmitir a força da mensagem? Isso também permite abordar temas mais delicados de se apresentar na rua.

Como você imagina os próximos passos da sua prática artística?
No aspecto técnico, dei alguns passos para trás para entender melhor as formas das figuras que pinto. Usando apenas uma cor – as cores me atrapalhavam –, consegui reproduzir certas imagens que estavam na minha cabeça há muito tempo. Graças a isso, realizei telas muito interessantes no meu ateliê em Belo Horizonte, no meu Minas Gerais, para uma exposição inédita. E em breve, todas essas linguagens artísticas serão celebradas em uma grande festa coletiva, uma celebração dos encontros, uma exposição do meu trabalho com muitos convidados: músicos, poetas, performers, muralistas, escritoras.

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Mag Magrela:
@magmagrela

© Belo Horizonte

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