Lisboa: a arte urbana entre tradição e modernidade

A capital portuguesa oferece uma experiência inesquecível para todos os amantes da arte, que pode ser descoberta em quase todas as esquinas.

Em Portugal, embelezar o espaço público faz parte da cultura popular, com os azulejos, pequenos ladrilhos de cerâmica esmaltada, que chegaram a Portugal com os árabes no século XII e se espalharam bastante a partir do século XVII. Originalmente usados para decorar palácios e igrejas, os azulejos rapidamente se espalharam pela vida cotidiana dos portugueses para decorar fachadas de edifícios, interiores de casas, fontes, escadas, estações ferroviárias e até mesmo estações de metrô. Seus motivos podem ser geométricos ou inspirados na vida cotidiana ou em eventos históricos. Essa técnica foi revisitada por Diogo Machado, mais conhecido como Add Fuel. No mesmo espírito, a calçada, arte de pavimentação em pedra calcária, transforma calçadas, praças e jardins em verdadeiras obras de arte, onde tradição e criação contemporânea se encontram.

Reconhecimento institucional
Se essas tradições acostumaram os lisboetas a ver a beleza no dia a dia, a cidade também tem uma ligação especial com a arte urbana atual. “Quando voltei a morar em Portugal, há uns quinze anos, a primeira coisa que fui ver, mesmo com tantas belezas em Lisboa, foi uma obra do Vhils na periferia”. Para ela, dois anos marcaram particularmente a história: “Após a Revolução dos Cravos, em 1974, os jovens finalmente puderam se expressar e o grafite começou a surgir. Durante décadas, foi uma guerra entre os agentes da cidade e os grafiteiros. Aos poucos, graças a artistas como Vhils e à intervenção de associações, as autoridades perceberam que se tratava de verdadeiras obras de arte. Era preciso preservar os murais que contribuíam para a beleza e a identidade da cidade”, explica com um sorriso Tania Barros, franco-portuguesa, guia turística e fundadora do site Où sortir à Lisbonne (ousortiralisbonne.com), uma verdadeira apaixonada. Em 2008, foi lançada uma campanha intitulada “Mudar a imagem do bairro”, utilizando a arte urbana como um processo de restauração de certas zonas urbanas. Naquela época, a prefeitura criou a Galeria de Arte Urbana (GAU), encarregada de “promover a arte urbana de forma legal e respeitosa com o meio ambiente, o patrimônio e os valores da capital, ao mesmo tempo em que combate o vandalismo”. Seu primeiro projeto: disponibilizar aos artistas painéis de expressão livre na Calçada da Glória, ao longo da descida do funicular – um dos quatro da cidade.

Pontos turísticos por toda a cidade
Hoje, basta dar um passeio pelas ruas de Lisboa, pelos bairros icônicos da Graça, Mouraria, Bairro Alto, Alfama… para descobrir um monte de murais incríveis. “Agora, os artistas se expressam por toda a cidade, até mesmo no centro histórico. Encontram-se frescos um pouco por toda a parte, mas é preciso estar atento e não ter medo de sair dos caminhos tradicionais, pois muitas vezes estão um pouco escondidos. Estas obras, que muitas vezes fazem referência a temas da cultura portuguesa, integram-se naturalmente na arquitetura. Hopare, francês, mas de origem portuguesa, acaba de realizar [em 1º de dezembro, nota do editor] no coração de Alfama, o bairro mais antigo de Lisboa, uma colagem intitulada “A cantora de fado das noites estreladas”, explica Tania Barros. A arte urbana se espalhou por toda a cidade. “Além do centro da cidade, há muitos grandes projetos artísticos na periferia. Organizamos passeios de tuk-tuk porque não dá para fazer tudo a pé. O festival Muro LX, que muda de bairro a cada ano, contribuiu muito para revitalizar áreas bastante desfavorecidas”. Cuidado, pois as inúmeras operações de urbanismo levam ao desaparecimento de obras, como o mítico Fado Vadio, frequentemente destacado na internet.

A não perder
Entre os locais imperdíveis, podemos citar:

  • As paredes, fachadas e portas abandonadas de Alcântara, que permitem que artistas locais e internacionais se expressem, especialmente em torno do centro artístico LX Factory, do Village Underground e da estação ferroviária de Alcântara-Mar.
  • Na Avenida Conselheiro Fernando de Sousa, o Amoreiras Wall of Fame é considerado o maior muro de grafites da Península Ibérica.
  • Marvila, um antigo bairro industrial entre o rio Tejo e as linhas férreas, que se tornou um dos símbolos do renascimento artístico de Lisboa com seus armazéns de tijolos e fábricas reconvertidas, abriga galerias, cafés descolados, cervejarias artesanais e murais espetaculares, incluindo os do projeto Walls That Matter.
  • Ao norte da cidade, Lumiar leva o conceito ainda mais longe com o seu Street Art Park, um projeto inédito na Europa, que surgiu de uma parceria entre artistas e instituições culturais e oferece um percurso sinalizado por dezenas de obras monumentais.
  • O Bairro Padre Cruz, o maior da Península Ibérica, mudou bastante em vinte anos, passando de um lugar com fama de perigoso para uma galeria de arte ao ar livre.
  • Em Sacavém, no norte da capital, a prefeitura transformou o bairro Quinta do Mocho num museu a céu aberto, permitindo que artistas locais se expressassem em paredes inteiras de prédios.

Uma cena local super rica
Mesmo que artistas internacionais, tipo o Shepard Fairey, que fez duas pinturas incríveis, estejam em Lisboa, vale a pena dar uma olhada nos artistas portugueses, que são muitos e estão sempre na ativa. “Tem o Vhils, que eu considero um dos maiores artistas do mundo, com a sua habilidade de usar todos os tipos de suporte e trabalhar com todos os materiais. Também é impossível não se apaixonar por Bordalo II [neto do pintor Artur Real Bordalo, nota do editor] e não aderir à mensagem que ele quer passar ao criar murais 3D a partir de resíduos transformados, a fim de alertar para os perigos da poluição e do consumo excessivo. Há também O Gringo, um francês de origem portuguesa, que se mudou para Lisboa há alguns anos e se apropriou dos azulejos. Ele começou como vândalo e suas obras chamaram tanta atenção que ele ganhou uma exposição individual no Museu Nacional do Azulejo, o museu mais visitado de Lisboa! Mencionemos também as pinturas nostálgicas de Mariana Duarte Santos, os murais poéticos monumentais de Mário Belém, as criações coloridas de Aka Corleone, o universo psicadélico de Rui Alexandre Ferreira (RAF), os relatos históricos de Nuno Saraiva… E todos aqueles que ainda estão por descobrir.

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