The Underbelly Project: mergulho no coração de um mito
Evento principal da 10ª edição da Urban Art Fair, o estande imersivo organizado em torno do The Underbelly Project é uma chance de mergulhar no coração desse projeto artístico único, liderado por Logan Hicks e Jordan Seiler.
Há mais de quinze anos, Logan Hicks e Jordan Seiler tiveram uma ideia meio maluca: invadir – sem autorização – uma estação de metrô abandonada no coração das entranhas (daí o nome do projeto) de Nova York. Em um ano e meio, entre 2009 e 2010, mais de cem artistas foram convidados a pintar murais gigantes com total liberdade. A única regra era que a obra tinha que ser feita em uma noite. Uma ilustração ainda mais perfeita do espírito vândalo da Arte Urbana, já que o local, mantido em segredo por muito tempo, sempre permaneceu inacessível ao público! Em 31 de outubro de 2010, após o término do projeto, os organizadores concederam uma entrevista – anônima – ao New York Times (publicada na primeira página!), mantendo o mistério… e a frustração. Felizmente, todo o projeto foi bem documentado (fotos, vídeos, time-lapses…) e um documentário conta essa aventura incrível, voltando às questões artísticas, éticas, legais e humanas. Logan Hicks fala sobre a história desse projeto, apresentado pela primeira vez ao público francês no Carreau du Temple, nos dez anos da Urban Art Fair.
De onde vem sua relação especial com o metrô de Nova York? Não
sei exatamente quando isso começou, mas, desde que me lembro, sempre gostei do metrô. Cresci em uma fazenda, mas sempre sonhei em morar na cidade. O metrô representava tudo o que eu gostava na cidade. É barulhento, agitado e cheio de todos os tipos de pessoas. A ideia de poder atravessar Nova York de norte a sul às 4 da manhã em um túnel que passa sob a cidade despertou meu desejo de viajar.
Como surgiu o The Underbelly Project?
Em 2007, mudei de Los Angeles para Nova York. Em 2008, a economia americana sofreu com o estouro da bolha imobiliária e minha namorada na época deu à luz nosso filho. O pior momento para se mudar para o outro lado dos Estados Unidos! Vender minhas obras era um verdadeiro desafio por causa da crise. Cheguei a pensar em arrumar um emprego “normal”, mas percebi que era hora de lutar pelo que acreditava: ser artista. Então, continuei pintando e expondo onde podia. Em uma das minhas exposições, conheci Jordan Seiler, que se tornaria meu parceiro no The Underbelly Project. Uma noite, conversávamos sobre a situação financeira dos Estados Unidos e nos perguntamos: “Se ninguém compra obras de arte e ninguém as vê, vale a pena continuar criando?”. Essa pergunta se tornou o ponto de partida do projeto: se não vendemos, vamos nos divertir! Jordan me mostrou essa enorme estação de metrô inacabada e começamos a pintar lá, não para vender, não para nos exibir, apenas por prazer.

Tinha uma sensação de aventura em passar despercebido, entrar nas entranhas do metrô e sentir nossos cinco sentidos acelerarem, entre a escuridão total, a sujeira acumulada pelo tempo e os silêncios inquietantes, sempre quebrados pelo eco dos trens que pulsavam na rede. Era emocionante estar entre tantos artistas importantes e, por uma noite, entrar na pele de um verdadeiro grafiteiro.
Chaz, The London Police
Como outros artistas se juntaram ao projeto?
Eu pintava com artistas em várias feiras e festivais há dez anos. Essas foram as primeiras pessoas que eu contatei. Depois, tentamos recrutar pessoas que estavam de passagem por Nova York. Não tínhamos orçamento, tudo era autofinanciado, então não podíamos pagar as despesas de viagem. Então, quando ficávamos sabendo que um artista estava na cidade, mandávamos um convite. Quando o projeto cresceu, fizemos uma lista dos artistas que gostávamos e mandamos e-mails pra eles se apresentando. Alguns participantes também recomendaram amigos. No final, 103 artistas participaram do The Underbelly Project.
Não foi frustrante criar essas obras num lugar inacessível ao público?
De jeito nenhum, pelo contrário. Isso me lembrou da minha infância, quando eu desenhava no meu quarto tarde da noite, antes de saber que poderia viver disso. Criar algo do nada é o que motiva todos os artistas que conheço e é por isso que gosto de arte. Nessa estação, não precisávamos tentar vender nossas obras, nem nos preocupar com críticos ou galeristas que dizem o que querem. Simplesmente fazíamos arte para nós mesmos. A única frustração era o ambiente, realmente difícil, úmido e sujo.

Quando saímos da plataforma para ir até a escada, lembro da minha ansiedade para ver o lugar, além das fotos. Dei uma volta pelo local, sentindo a mesma calma que procuro em Paris, nessas gigantescas infraestruturas subterrâneas que adoro.
Fantin Leroux
Como uma iniciativa assim, que surgiu sem nenhuma autorização, virou referência?
Quando a gente fez esse projeto, a arte urbana estava começando a mudar: as grandes marcas estavam pegando a arte de rua, os incorporadores imobiliários encomendavam murais pra deixar os bairros mais seguros, as empresas patrocinavam festivais… Embora fosse legal receber por isso, a gente sentia falta da época em que expor seu trabalho na rua sem pedir permissão era um ato rebelde. Nessa estação, ninguém podia comercializar o que a gente fazia e lucrar com isso. Foi um dos últimos projetos de arte urbana de verdade feitos por artistas para artistas.
Fazer um documentário foi a melhor maneira de capturar a essência desse projeto? Também
lançamos um livro, mas o filme foi mais capaz de capturar a essência e homenagear a comunidade reunida em torno desse projeto e os riscos que todos nós corremos ao pintar ilegalmente nesse lugar. O desafio foi realizá-lo: levar o material, filmar em uma estação de trem mergulhada na escuridão… O filme ajuda a dar vida às ideias que sustentam esse projeto e a registrar essa ideia maluca que se tornou realidade.
Hoje em dia, a arte urbana ainda mantém seu espírito rebelde e underground?
Acho que não. Quando algo é novo e fresco, é empolgante. Mas depois de um tempo, alguns começam a impor regras, sacrificando a arte em nome do comércio. O dinheiro distorce até mesmo os ideais mais puros. Quando comecei, ninguém queria ser “artista de rua”; nós só queríamos que nossa arte fosse vista. Como as galerias não aceitavam, nós a colocamos na rua. Mas hoje, jovens pagam US$ 90 mil por ano em uma escola de arte para obter um diploma de “artista de rua”. A arte urbana é mais reconhecida, a qualidade melhorou, a diversidade e a inclusão dos artistas aumentaram. Mas a energia bruta dos primórdios praticamente desapareceu. Hoje, a “arte de rua” não é mais do que arte na rua. Não sei se isso é bom ou ruim. Tudo muda; nada dura para sempre. Só existe uma primeira vez. Depois, a gente só repete o que já foi dito.

A lembrança mais marcante é, sem dúvida, o longo silêncio que veio depois do que eu disse. Foi tipo acordar de um sonho bem real, sabendo que não dá pra fechar os olhos e voltar pra ele. Foi um momento surreal, super pessoal, que poderia muito bem nunca ter acontecido.
Joe Iurato
Por que você escolheu a Urban Art Fair para mostrar esse projeto pro público?
Primeiro, acho que o apoio à arte urbana é mais forte em Paris do que em outras cidades. Em Paris, tem instituições, fundações, museus e galerias que apoiam esse movimento de várias maneiras. Até mesmo o pedestre comum parece ter uma ideia do que é a arte de rua. Achei que essa cidade seria receptiva a esse projeto. Além disso, acompanho a Urban Art Fair há muitos anos e sempre respeitei o compromisso deles em apresentar obras de arte de alta qualidade. Por isso, tinha certeza de que eles entenderiam o espírito do projeto. Senti que valia a pena trabalhar com eles para apresentar nossa visão e destacar o The Underbelly Project.
Que obras vão estar no estande?
Vamos expor 18 artistas do The Underbelly Project. Não deu pra mostrar os 103 participantes, mas a gente tá pensando em fazer outras exposições pra incluir todo mundo. Tentamos escolher artistas que usam várias técnicas, destacando aqueles que ficaram mais conhecidos desde o Underbelly. Não podemos esquecer que o projeto já tem 16 anos. Quando começamos, éramos todos jovens e iniciantes. Com o passar dos anos, muitos de nós expusemos em museus, entramos em coleções de fundações e construímos uma carreira de uma forma que nunca imaginávamos ser possível. Tentamos mostrar aos visitantes como o The Underbelly Project marcou a história.
© Ian Cox / Logan Hicks



