Núcleum, o novo coração pulsante da arte urbana de São Paulo

Um prédio abandonado transformado em um espaço de criação e difusão, por iniciativa de artistas e colecionadores.

Ainda me lembro da ligação do Enivo. Foi em outubro, uma voz cheia de entusiasmo. Ele me falou de um prédio abandonado, sete andares deixados em silêncio há mais de seis anos, situado ali entre Cambuci e Aclimação, em São Paulo, um território repleto de história onde, há quarenta anos, os primeiros grafites marcaram a cidade brasileira. Não hesitei por muito tempo, impulsionado pela amizade que me une a Enivo, pela sua visão e porque certos lugares te chamam antes mesmo de existirem. Aquele prédio viria a se tornar o Núcleum. Rapidamente, a energia começou a fluir. As paredes ainda nuas atraíram os olhares, depois as mãos. Nilson Netto, colecionador, chegou com sua visão, seguido por uma constelação de artistas: Felipe Risada, Carolina Leal, Alexandre Lobot, Alexandre Puga e seu pai Ronaldo, Thiago Goms… até formar uma equipe de cerca de quinze fundadores. Uma verdadeira família. Três meses respirando poeira, raspando, limpando, repintando, reconstruindo. Três meses conversando com as paredes para devolver-lhes uma memória.

O momento em que o lugar ganha vida
E então, no dia 28 de março – uma data gravada como um batimento cardíaco coletivo –, mais de 5.000 visitantes em um único dia: uma multidão curiosa e animada, que se aglomera nesse labirinto vertical que se tornou uma experiência. No segundo subsolo, as paredes falam em pixação dos anos 1990, transformando o espaço em uma sala de projeção crua, quase sagrada. No primeiro subsolo, os pioneiros tomam a palavra: Tinho e Binho Ribeiro dialogam em um afresco explosivo; Ozi impõe seus estênceis com quarenta anos de maestria; Simone Siss relembra, com força, o lugar conquistado num movimento há muito dominado por homens; um carro personalizado por Nobru CZ, do SPParis, já pulsa ao ritmo dos shows do fim de semana. Já o térreo expõe nossos universos entrelaçados, prolongados por um café animado comandado pelo Walk.

Um impulso coletivo
No primeiro andar, duas salas imersivas pulsam como dois corações. A de Bieto, onde formas orgânicas ondulam com a luz e o som. E a de Alexandre Puga, que conta a história de Grajaú, berço de tantos talentos. Hoje, essa sala vive o dia a dia: performances, dança, circo, poesia, o corpo e a voz encontram ali seu refúgio. No segundo andar, a galeria abre o campo com cerca de 70 artistas para este primeiro ato, de Rui Amaral, presente antes mesmo do grafite nascer, passando pela pixação de Lixomania e Eh Humano, até aos contemporâneos como Fefe Talavera, Pri Barbosa ou Mag Magrela. O terceiro andar tem um ar diferente: oficinas abertas, encontros com os artistas fundadores. Lá a gente aprende, troca ideias, suja as mãos. No quarto andar, uma casa suspensa: residência para artistas internacionais, espaço de exposição em construção. Para a inauguração, Sliks, Pri Barbosa, Highraff e Bugre já deixaram suas marcas, dialogando com as paredes como se fala com uma cidade. Hoje, ando pelo Núcleum e ainda ouço os ecos da obra, misturados aos passos dos visitantes. Esse lugar não é só um centro de arte. É uma respiração coletiva, uma memória em construção, uma promessa vertical. E talvez, no fundo, uma forma de dizer que a rua nunca parou de subir.


Os membros fundadores do Núcleum
Enivo: Carol Leal, Jacaré, Tinho, Alexandre Lobot, Felipe Risada, Alexandre Puga, Gary Laporte, Nilson Netto, Talita Kutianski, Albert Lazarini, Nobru CZ, Dani Ursogrande, Tché Ruggi, Zé Luis, Thiago Goms, Bruno Pastore, Maycon Santos, Maycon Dany Ode, Federico Guerreros, Ronaldo, João Patu, MUUR, Seu Domingos, Agência Imaginera, Lu Stabile.

O Núcleum é um espaço cultural onde artistas, unidos por um mesmo propósito, se reuniram para transformar oito andares — que antes eram uma fábrica de gravatas — agora reinventados como uma fábrica de arte, uma fábrica de sonhos, onde se constrói, cria, divulga e ensina a arte e suas múltiplas relações. Nosso objetivo é levar a arte brasileira para além das fronteiras.

Tché Ruggi

Um percurso completo que reúne todos os públicos: entusiastas, colecionadores, empresas e famílias, com oficinas dedicadas aos mais jovens. Porque a arte fala a todas as gerações.

Albert Lazarini

Essa vontade de transformar esse prédio abandonado em uma nova experiência para a cidade surgiu da minha amizade com o proprietário, Seu Domingos, que acreditou na nossa visão.

Enivo

O Núcleum dialoga com todas as formas de arte, indo além das artes visuais, oferecendo um espaço para que todos possam se expressar.

Carolina Leal

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