SINO: reinventar-se constantemente, mesmo com o risco

Do grafite ilegal ao ateliê, Sino segue em frente sem rede de segurança, sem concessões. Com a mesma exigência, ele explora territórios onde cada nova criação implica colocar tudo em jogo.

O trabalho de Sino gira em torno de uma ideia: as restrições não são um obstáculo, mas sim um incentivo. Desde o começo com grafites ilegais, as letras são um desafio, exigindo que a gente domine sem nunca ignorar. Sem exageros gráficos, sem complexidade gratuita: colocar seu nome, de forma clara e eficaz. Sino manteve essa exigência ao deixar a rua para o ateliê. Tanto na tela quanto no volume, ele procura se livrar dos automatismos, mantendo um rigor quase obsessivo. Deixar ir sem abrir mão da tensão; experimentar correndo o risco de perder parte do público: uma postura constante e assumida. Nesta entrevista, Sino fala sobre sua relação com o tempo, com a repetição impossível, com a criação como necessidade vital. Ele fala de fracasso, de perigo, de reconstrução permanente. Uma fala rara, contrária aos relatos heróicos, que ilumina uma trajetória construída sobre a recusa da facilidade.

O que sobrou do adolescente que descobriu o grafite?
O perigo, a adrenalina, o clima, os planos, as dificuldades, os amigos… e aquela sensação de viver algo juntos. Tantas experiĂŞncias compartilhadas na ilegalidade que constroem uma memĂłria comum! Na Ă©poca, primeiro localizávamos uma parede, depois desenhávamos um esboço adequado antes de fazer o grafite. Eu, que quase sĂł fiz grafite ilegal, era isso que eu gostava. Comecei a fazer grafite bem tarde, por volta dos 17 anos; nessa idade, vocĂŞ tem poucas responsabilidades, muita energia e uma liberdade que o tempo acaba alcançando. Hoje, a gente sai de carro pela periferia, cada um olha pra direita, pra esquerda e, quando aparece o lugar certo, a gente para e vai em frente. Aos 50 anos, com uma famĂ­lia, vocĂŞ nĂŁo pode mais viver as coisas da mesma maneira: restam as lembranças, as histĂłrias que contamos durante uma refeição. E como meu pai me enchia com suas histĂłrias do exĂ©rcito, agora sou eu que encho meu filho com minhas histĂłrias de grafite [risos].

Você faz parte de uma geração em que a letra era um campo de conquista. O que ainda te fascina hoje?
As restrições que a letra impõe… e eu adoro restrições. O que me agrada Ă© brincar com ela, distorcĂŞ-la o suficiente para que tenha estilo, sem ultrapassar certos limites para manter a legibilidade. Se vocĂŞ for longe demais, nĂŁo Ă© mais uma letra, mas uma forma abstrata. Para mim, o objetivo do grafite, assim como do tag, Ă© colocar seu nome. É por isso que optei pelo Simple Style e nĂŁo pelo Wild Style que, por mais complexo que seja, muitas vezes Ă© ilegĂ­vel de um carro em movimento, portanto ineficaz. Paradoxalmente, um Simple Style Ă© muito mais difĂ­cil de conseguir do que um Wild Style, onde o erro se esconde facilmente atrás de setas, quebras, serifas, tijolos… Com o meu Simple Style, se a curva do meu S nĂŁo estiver certa, isso Ă© imediatamente visĂ­vel. NĂŁo posso trapacear, como um cantor a cappella diante de alguĂ©m que se acompanha com mĂşsica e usa o auto-tune.

Essa simplicidade virou uma obsessĂŁo?
A simplicidade tambĂ©m Ă© uma postura humana. Quando tem muitos enfeites, Ă© porque tá escondendo alguma coisa. Gosto quando Ă© legĂ­vel, direto. Como um objeto bem projetado: se ele nĂŁo cumpre mais sua função, nĂŁo Ă© mais um objeto, Ă© uma escultura. Mas a simplicidade Ă© difĂ­cil de alcançar. S-I-N-O parece simples, fácil de realizar. E Ă© justamente essa aparente simplicidade que me faz voltar sempre a ela: escrevo SINO desde 1988 e, mesmo tendo desenhado milhares de S, todos sĂŁo diferentes! É uma exigĂŞncia da minha geração: forçar-se a inovar a cada letra, daĂ­ os esboços para inventar novas formas a cada vez. Essa exigĂŞncia tambĂ©m Ă© uma desvantagem no mundo da arte, onde Ă© preciso encontrar o equilĂ­brio entre permanecer identificável e nĂŁo se repetir, o que Ă© extremamente difĂ­cil. Os jovens de hoje sĂŁo mais espontâneos do que nĂłs Ă©ramos; eles seguem mais o instinto. Duas escolas diferentes…

Por que essa necessidade constante de criar cada vez mais?
O que me motiva, acima de tudo, Ă© criar — mesmo que nem sempre seja a melhor estratĂ©gia para ser reconhecido. Letras, abstração, volume… nĂŁo sĂŁo rupturas, mas um caminho. Preciso de pesquisar, aprender, experimentar… e tambĂ©m construir, seja um quadro, uma escultura, uma maquete, uma estrutura. Desde que me lembro, sempre criei: um banco com pedaços de madeira, um churrasco a partir de um velho frigorĂ­fico abandonado… O desafio motiva-me, seja qual for o projeto. Foi assim que cheguei Ă  escultura, com vontade de explorar outros materiais – silicone, porcelana, cerâmica, metal… Um processo longo e exigente, já que esculpo cada peça em massa Fimo e depois faço os moldes eu mesmo. Posso me divertir com qualquer forma de criação, mas preciso de um motor, de um objetivo.

O que você está procurando hoje na tela?
No ateliĂŞ, eu nĂŁo faço grafite. O grafite tem suas regras – mesmo que nada esteja escrito –, suas proibições, seus cĂłdigos. Na tela, eu me livro deles de propĂłsito, porque eles acabam sendo um obstáculo. Mas nĂŁo trabalho sem restrições. A minha restrição Ă© o abandono total, e isso Ă© sem dĂşvida o mais difĂ­cil para mim. Sem esboço nem maquete: começo sem saber para onde vou. EntĂŁo, trabalho a matĂ©ria, a textura, as formas. Cada tela se torna assim um fragmento de parede que carrega as marcas do tempo – rachaduras, manchas, lascas… –, e que ninguĂ©m mais olha, uma janela para a rua, mas tambĂ©m um espelho de nossas prĂłprias existĂŞncias, marcadas, Ă s vezes quebradas, mas nunca destruĂ­das. SĂł fico satisfeito quando sou surpreendido pelo resultado… como se nĂŁo fosse eu o autor. Mas esse desapego Ă© uma luta. É um trabalho exigente, que me exige muita energia, porque luto constantemente contra os meus hábitos. E mesmo me forçando, ainda me acontece “calcular”, como os trĂŞs pontos amarelos que escorrem no quadro Spectres 17, Horizon [risos]. Sou do signo de Touro e dizem que gostamos de aventura, mas preparada… [risos].

Por que essa necessidade de se colocar em risco?
É isso que me mantém vivo artisticamente. Na rua, você se coloca em risco a cada grafite ilegal. No ateliê, o risco é diferente, mas igualmente real. Meu trabalho nunca se repete e cada nova direção implica perder parte da minha comunidade e do meu público, para depois reconstruir tudo. É como um rapper que lança um álbum folk: uma minoria vai acompanhar, a maioria vai desistir. E, no entanto, é esse risco que me motiva. Como no início do grafite, quando esperávamos pela surpresa. Essa lógica nunca me abandonou!

Quais sĂŁo seus projetos?
A organização de uma exposição coletiva com um percurso lĂşdico na Maison Lorilleux, em Puteaux, de 3 de outubro a 29 de novembro de 2026. Philippe, apaixonado por informática e eletrĂ´nica, Air e eu – ambos vindos do grafite – estamos em plena seleção dos artistas. É um projeto ambicioso, pensado como uma experiĂŞncia para o pĂşblico. Ao mesmo tempo, estamos desenvolvendo um aplicativo para artistas: o ARTEKAT. Ele vai permitir que eles gerenciem e editem instantaneamente catálogos profissionais e certificados de autenticidade em PDF direto do celular e enviem para colecionadores. O aplicativo tambĂ©m vai permitir imprimir cartazes e comprovantes de depĂłsito para os galeristas assinarem. Na prática, o artista sĂł precisa fotografar cada obra que produzir, carregá-la no aplicativo e preencher as informações – tĂ­tulo, formato, tĂ©cnica – onde quer que esteja, no banho, no metrĂ´… Ele poderá atĂ©, se quiser, incluir notas: obra depositada em tal galeria, quadro vendido para tal pessoa… Atualmente em fase de testes, o ARTEKAT estará disponĂ­vel na primavera na App Store e no Google Play. O download será gratuito e oferecerá 5 crĂ©ditos para usar livremente. Depois, o artista poderá comprar pacotes de 10 crĂ©ditos por 10 euros, para usar quando quiser. Por fim, tambĂ©m será oferecida uma assinatura anual sem limite de crĂ©ditos por 50 euros por ano.

Para ver
Sino:
sinoduc.com
Instagram: @sino_duc

Posts Similares