Pakone: fazer as paredes florescerem

Nascido em Brest, Pakone é uma figura incontornável da sua cidade, mesmo que sua fama já tenha ultrapassado em muito as fronteiras da Bretanha.

Defensor de um grafite aberto e autêntico, Pakone é mais conhecido por suas Sakura, as cerejeiras japonesas que convidam tanto a viajar quanto a meditar. Mas não dá pra reduzir ele só a esse tema emblemático. Desde letras old school até as composições mais envolventes, ele coloca seu domínio técnico e seu talento como colorista a serviço de uma ambição: embelezar o dia a dia, tanto nas paredes quanto na tela, sem esquecer de “cultivar seu jardim”, no sentido literal e figurado.

Como começou a tua trajetória?
Como muitas crianças da minha geração [ele nasceu em 1974, nota do editor], descobri o hip-hop e o grafite pela TV. Pra mim, isso vinha dos Estados Unidos. Aos 14 anos, me deparei com um enorme grafite com as letras GSR – de GĂ©nĂ©ration Sans Reproche, um dos primeiros grupos de Brest – bem em frente Ă  minha escola. Foi uma revelação! Quando fui estudar na Faculdade de Belas Artes de Cherbourg, deixei o grafite de lado por trĂŞs anos, mesmo sabendo que era isso que eu queria fazer da minha vida. Parei os estudos e comecei a procurar bares, lojas e boates pra propor pinturas nas paredes. Com meu amigo Alez, a gente deve ter pintado em mais da metade dos bares de Cherbourg! Eu tambĂ©m dava oficinas; trĂŞs dos meus alunos, Baby.K, Darkelixir e Blesea, aliás, viraram profissionais. Ao mesmo tempo, eu fazia grafite nas ruas, o que me rendeu algumas intimações na delegacia…

Mas vocĂŞ sentia falta de Brest…
Eu não tinha planos de ficar em Cherbourg. Em Brest, muitos dos meus amigos de infância tinham começado a fazer grafite. Eu me juntei a eles no C29, um grupo de amigos, nem todos necessariamente do mesmo nível, mas a gente não ligava pra isso. A gente se reunia todo fim de semana pra pintar no porto comercial, num terreno de quatro hectares. Nossas jam sessions reuniam até 200 grafiteiros, sem nenhuma estrutura nem patrocinador, só um coletivo que convidava os amigos. O grafite é um movimento coletivo: a gente pinta junto, se expõe ao olhar dos outros e se incentiva mutuamente.

Ainda Ă© assim hoje em dia?
Provavelmente um pouco menos. Os membros da turma original se espalharam por toda a França e a gente está menos presente. Os mais velhos, como eu, tĂŞm famĂ­lia, emprĂ©stimos pra pagar, outras prioridades… A gente se encontra uma vez por mĂŞs, e nĂŁo mais toda semana como antes. Com a urbanização, nosso espaço de ação tambĂ©m encolheu bastante. Mas o espĂ­rito do grafite de Brest ainda existe. É uma tradição da qual a gente Ă© meio que os guardiões, com essa vontade de defender o grafite old school.

VocĂŞ Ă© conhecido pelas suas Sakuras. Como esse tema surgiu?
Além do meu trabalho como grafiteiro, eu também pintava em tela, só pra mim mesmo. Para o “Crimes of Minds”, em vez de fazer mais letras, tive a ideia de encarar a parede como uma tela gigante, retomando um dos meus temas de estúdio: as cerejeiras japonesas. O desabrochar dessas flores, que estão fadadas a desaparecer, é pra mim uma metáfora da arte urbana: os murais também acabam desaparecendo ou sendo cobertos. A foto da obra, divulgada pelo site inglês Street Art Utopia, foi a mais curtida de 2012 e teve milhões de visualizações. No México, durante um Meeting of Styles, dois jovens chegaram a me perguntar: “Foi você quem desenhou isso?”; algo bem improvável, do outro lado do mundo! Essa visibilidade me deu vontade de seguir por um trabalho mais ilustrativo.

Trabalho em ateliê, encomendas de afrescos, participação em festivais… Você não tá sobrecarregado?
Por muito tempo eu dizia sim pra tudo, mas depois percebi que, Ă s vezes, Ă© preciso dar um tempo, ou atĂ© mesmo sumir um pouco, pra nĂŁo cansar a galera. É preciso manter a espontaneidade do grafite, a energia do momento. Se um projeto Ă© preparado com muita antecedĂŞncia, na hora de executá-lo, Ă s vezes eu já nĂŁo tenho mais vontade [risos]. Pintar tem que continuar sendo um prazer, nĂŁo sĂł um jeito de encher a geladeira. As telas, eu sempre fiz por diversĂŁo, quando estava a fim ou quando chovia – isso acontece Ă s vezes na Bretanha! Eu provavelmente deveria dedicar mais tempo ao ateliĂŞ, mas uma nova paixĂŁo que toma bastante tempo está me ocupando no momento: a jardinagem, uma bela fonte de inspiração. Sem ela, eu certamente pintaria mais…

Você dá muita importância à integração dos seus murais no ambiente…
Pra mim, não dá pra separar a obra do lugar: ela precisa entrar em sintonia com o que está ao redor. Tenho quase um olhar de fotógrafo e penso na composição imaginando um conjunto harmonioso, um pouco como num jardim japonês, onde uma pedrinha dialoga com uma planta. Nos meus murais, gosto de trabalhar com profundidade, brincar com ângulos e volumes, confundir um pouco o espectador pra que ele se pergunte o que faz parte da obra e o que pertence ao que está ao redor. A anamorfose, que eu uso bastante com a galera da TSF, permite levar essa integração ainda mais longe. Mesmo quando faço uma maquete, ela só me dá uma ideia geral. Quando chego na parede, quase não olho mais pra ela. Preciso deixar minha imaginação fluir, não apenas executar como um artesão.

E quanto Ă s cores?
Eu sempre escolho cores que combinem com o ambiente e que não sejam muito agressivas para quem mora por lá. Se houver tons predominantes ao redor da parede, eu pego alguns desses toques para usar no mural. É claro que adoro os tons profundos de rosa que tendem para o roxo, ao mesmo tempo vivos, suaves e femininos, que surgiram no meu trabalho com as cerejeiras. Também curto as cores minerais, principalmente os cinzas coloridos, que dão um toque de realismo. Quanto às letras, continuo fiel à sobriedade do preto e do cromo, como na época em que pintava ao longo dos trilhos. Tem um lado cru, minimalista, sem frescuras: as letras precisam ter personalidade, já que não dá pra chamar a atenção com jogos de cores.

O que vocĂŞ quer para o futuro?
Tenho vários projetos de instalações na cabeça. Para o Dédale, em Vannes, misturei minha técnica de grafiteiro com o que aprendi na Faculdade de Belas Artes, quase como se fosse um cenário de teatro. Gostaria de explorar outros lugares como esse, com aquele clima meio urbex, meio sujo, pra fazer a arte desabrochar como uma florzinha entre dois paralelepípedos, algo que a gente teria vontade de proteger. Uma obra imersiva em que os grafites ganhassem vida com a passagem do espectador, um pouco como a folhagem das árvores, também me agradaria muito. Às vezes tenho a impressão de estar a meio caminho entre o artista e o inventor. Um dia, com certeza, vou conseguir transformar tudo o que tenho na cabeça em realidade.

© IG

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