Pardal: o pássaro livre do grafite brasileiro

Há quase trinta anos, por meio de suas aves, Pardal transforma o espaço urbano em um território de sonhos, convidando cada um a refletir sobre sua própria trajetória.

Há quase trinta anos, o Pardal espalha seus pássaros pela paisagem urbana brasileira. Nascido nos bairros populares da zona norte de São Paulo, o artista cresceu entre desenho, pixação e grafite, antes de criar um universo facilmente reconhecível, cheio de pássaros, casas suspensas e paisagens repletas de poesia. Por meio dessas figuras, o Pardal questiona a liberdade, a relação com a cidade e nossa conexão com o meio ambiente. Suas obras, que podem ser vistas nas paredes de São Paulo e em projetos de alcance internacional, mostram uma trajetória construída nas ruas, em contato direto com a galera e o território. Nesta entrevista, ele relembra seus primórdios nos anos 1990, a influência da cultura urbana paulista, o nascimento de seu personagem emblemático e sua visão de uma arte capaz de transformar o cotidiano, ao mesmo tempo em que convida cada um a seguir seu próprio caminho.

Você começou a pintar as paredes da Freguesia do Ó e de Brasilândia em 1996. Quais são suas primeiras lembranças dessa época?
Quando era criança, lembro que ficava desenhando o tempo todo, até mesmo nas mesinhas da escola. Eu também adorava inventar letterings. Fazia à mão todas as capas dos meus trabalhos escolares, e meus colegas sempre me pediam pra criar algumas com títulos como “Trabalho de História” ou “Trabalho de Geografia”. Comecei a trabalhar bem jovem, aos 14 anos, como mensageiro — o que me obrigava a atravessar a cidade para entregar documentos. Foi nessa época que comecei a observar São Paulo com mais atenção. Foi lá que descobri a magia da pixação (grafite tipográfico brasileiro) por meio de grupos e nomes como Ilários, Legião, Retardados, Marginais, Ratos da Frega, MaBoy, João Boy, Xuim, Tchentcho, Krellos, Ossos, Di e Os Grafes.

Como era a cena do grafite em São Paulo nos anos 1990?
A cena era mágica, original e muito forte. Assim como na pixação, vários artistas de grafite me influenciaram naquela época, principalmente OSGEMEOS, Speto, Binho, Tinho, Nina Pandolfo, Onesto e Vitché. Os recursos pra pintar eram bem limitados. Praticamente só existia uma marca de tinta em lata, feita pra carros, com uma paleta de cores bem limitada e preços altos pra um jovem da periferia. Por isso, a gente tinha que encontrar alternativas: pegar sobras de tinta em canteiros de obras ou comprar latas vencidas por um preço mais barato. Naquela época, a gente pintava com o que encontrava. As opções eram poucas, mas talvez fosse isso que estimulava tanto a criatividade.

O pardal resiste, se adapta e continua vivendo em meio ao caos urbano. Talvez seja por isso que eu me identifico tanto com ele.

A rua costuma ser descrita como seu primeiro ateliê. O que você aprendeu no espaço público que nunca teria aprendido em uma escola de arte?
Não existe espaço mais democrático do que a rua. Todo tipo de gente passa por lá, e a gente nunca sabe quem pode se emocionar com o que a gente pinta. Uma obra pode despertar sentimentos bem diferentes: alegria, admiração, reflexão, rejeição ou até mesmo ódio. O grafite é uma ferramenta de reflexão. Ele provoca reflexões e cada um atribui à obra um significado de acordo com sua própria experiência de vida. Quando você pinta na rua, essa pintura deixa de ser só sua. Ela passa a pertencer à cidade e faz parte do dia a dia dos moradores, seja percebida de forma positiva ou negativa. A rua me ensinou muito mais do que técnicas. Ela me ensinou um estilo de vida e, acima de tudo, o respeito pelo espaço do outro.

Qual é a história por trás do pseudônimo “Pardal”?
O apelido “Pardal”, que significa pardal, vem da minha infância, bem antes do grafite. Quando eu tinha uns quatro anos, imitava os pássaros e achava que conseguia me comunicar com eles. Na minha imaginação, eles me respondiam. Coisas de criança [risos]. Na mesma época, meu pai me matriculou numa escola de capoeira. Como manda a tradição da capoeira, cada aluno ganha um apelido. Por causa desse meu costume de imitar os pássaros, e também porque achavam que eu parecia um pardal, esse apelido pegou… E ficou.

O pardal é um pássaro muito comum nas cidades. Você se identifica com esse animal?
Eu me identifico bastante com ele. Acho que o pardal é um passarinho extremamente resiliente. Provavelmente não existe pássaro mais urbano do que ele. Não dá pra enjaular um pardal: ele simplesmente não sobrevive. As casinhas de pássaros que costumam aparecer com esse personagem no meu trabalho também remetem a essa ideia de um pássaro livre, que sempre tem um lugar pra onde voltar sem ficar preso. O pardal é uma espécie muito comum no Brasil, principalmente em São Paulo. Infelizmente, desde os anos 1990, a população dele diminuiu bastante — certamente por causa do crescimento desequilibrado das cidades, da poluição e da redução das áreas verdes. Talvez seja por isso que eu me identifique tanto com ele. O pardal resiste, se adapta e continua vivendo em meio ao caos urbano.

Que história você quer contar por meio do seu passarinho?
Meu passarinho não é exatamente um pardal. É um conceito, uma ideia, uma pessoa, ou até mesmo um sentimento. Além do simbolismo presente nessas figuras, elas também trazem uma preocupação ambiental. Gosto de passar essa mensagem de um jeito divertido. De certa forma, meus pássaros fazem uma pergunta: você está voando com suas próprias asas e realizando seus próprios sonhos, ou está preso numa gaiola, vivendo os sonhos de outra pessoa?

Hoje, você é um dos artistas mais presentes nas ruas de São Paulo. O que essa cidade significa pra você?
Ela significa tudo! Tenho uma relação de amor e ódio com São Paulo. Tem muita desigualdade social e várias coisas que precisariam melhorar. Mas também tem muito amor, diversidade e espaço para todo mundo. Sinto uma gratidão imensa por essa cidade. Pra mim, ela é um caderno de desenho gigante, e eu sigo minha jornada tentando chegar às últimas páginas desse caderno [risos].

Você faz parte do seleto grupo de artistas urbanos brasileiros que já pintaram um avião, ao lado dos OSGEMEOS. O que esse projeto significa na sua trajetória?
É um dos projetos dos quais mais me orgulho. Dedicado ao retorno da Arara-de-Spix, uma espécie que por muito tempo foi considerada extinta na natureza no Brasil, ele tinha um forte significado simbólico. Como desenho pássaros desde criança, ver uma das minhas personagens literalmente alçar voo em um avião foi uma experiência única, quase irreal. Promovido pela Dionisio Arte e vários parceiros, o projeto combinava conscientização ambiental e desafio técnico. Realizado ao longo de quase um ano e oito meses, exigiu um trabalho significativo de concepção e coordenação com as equipes da Embraer. Diferente de um mural, a pintura de um avião também precisa atender a restrições técnicas precisas, até mesmo no peso das camadas de tinta aplicadas na fuselagem. Essa aventura foi uma das mais exigentes, mas também uma das mais enriquecedoras da minha carreira.

Que conselho você daria ao jovem Pardal que começou a pintar nas ruas de Brasilândia em 1996?
Eu usaria uma frase do Emicida que eu curto muito: “você é o único representante do seu sonho na face da Terra. Se isso não te fizer correr, não sei o que vai te fazer correr”. Então eu diria pra ele: “estuda, trabalha e vai atrás dos teus sonhos”, mas também “alça voo, Pardal. Não corra… voe! Porque você já nasceu atrasado” [risos].

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o Pardal:
@pardalone

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