Disek: da presença à persistência

Para Disek, o grafite só existe na rua. A tela apenas abriga uma imagem, um vestígio. E é justamente nesse espaço intermediário que se manifesta a singularidade da sua prática.

Através de sua prática, o artista tece um diálogo entre a rua e o ateliê, entre o grafite como um gesto livre inscrito no espaço público e sua representação na tela. Diante dessas obras, o olhar é deslocado, confrontado com o que lhe escapa. Não se trata mais de reconhecer uma forma, mas de perceber sua profundidade, sua tensão, sua energia, sua incompletude. A emoção não está no que é dado, mas no que falta, nessa presença em vazio que remete a uma experiência que a tela não consegue conter. Uma obra vibrante e saturada, onde a cor atinge a retina e envolve a mente.

O que o grafite significa pra você?
Eu comecei a viver de verdade aos 17 anos, quando descobri o grafite. Naquela época, eu fazia grafite só pra mim, sem me preocupar em fazer algo “bonito”. Quando você não é ninguém pra ninguém, escrever seu nome no espaço público, em grande escala, é uma forma de existir, de encontrar seu lugar numa cidade superimpessoal, mesmo que isso te traga muitos problemas! Quando você pinta na rua, todos os seus problemas desaparecem: você não sente mais fome, não sente mais sede, não sente calor mesmo fazendo 40 °C… Nada mais existe, além da sua parede! Ao fazer grafite, eu me construí, até encontrar meu lugar e assumi-lo. Desde então, minha vida gira em torno do grafite: não é só uma paixão, é algo visceral! Olhando pra trás, minhas melhores lembranças estão ligadas a isso. Claro, colocar letras e cor em uma parede não salva vidas. Mas salvou a minha. Minha frase de efeito “Graffiti save my life” não é só um bordão…

De que forma a viagem transformou a tua relação com os outros e, por extensão, a tua prática do grafite?
Antes de viajar, eu não gostava muito de contato com as pessoas. A sociedade me oprimia. Sou uma pessoa ansiosa, tenho medo de tudo. Quando planejo algo e não sai como eu esperava, fica muito complicado para mim. Com o tempo, aprendi a identificar minhas fraquezas e a lidar com elas, principalmente por meio de um estado de alerta permanente, uma “vigilância”. Viajar teve um papel decisivo. Quando parti para dar a volta ao mundo para o projeto “J’irai graffer chez vous”, optei por não planejar nada. Assim que pensei “no plan is the plan”, tudo ficou simples. Isso me permitiu aproveitar a experiência ao máximo, mesmo que voltar ao essencial – comer, dormir – exija se reorientar, mas também avaliar rapidamente as situações, as pessoas e até mesmo as paredes. Ao viajar, também percebi que a maioria das pessoas que eu encontrava era muito mais aberta do que eu imaginava. Compreendi que pintar paredes criava laços, provocava reações, gerava um diálogo. Desde então, essa dimensão é central na minha prática. Ela me permite me sentir no meu lugar, com a sensação de participar, à minha maneira, de algo maior. Não mudo a vida das pessoas, mas posso, às vezes, trazer um pouco de cor, de luz… e devolver o sorriso a elas. Ofereço minha energia e elas me transmitem a delas por meio de um sorriso, um elogio… Um simples comentário, “o que você faz é legal”, às vezes basta para alegrar o dia!

Como você escolhe as paredes que vai pintar?
Eu não vou atrás delas; elas simplesmente aparecem. Na maioria das vezes, não tenho nenhum local planejado. Eu saio por aí e uma espécie de instinto me leva até uma parede, uma porta de rolo… Sei que é o lugar certo; quase vejo meu nome já pintado ali. Mesmo no exterior, numa cidade que não conheço, certos lugares se impõem como uma evidência, mesmo quando a parede parece impossível de pintar ou fica num bairro perigoso. Esse instinto nunca me enganou; tudo sempre deu certo. Na rua, sempre tive a sensação de estar no meu lugar, de fazer o que fui feito para fazer; isso me recarrega e alimenta meu trabalho nas telas.

Seu trabalho se baseia num equilíbrio entre impacto, legibilidade e energia. Como você constrói isso?
Para mim, legibilidade e impacto andam de mãos dadas: uma reforça a outra. O impacto está na escolha do local, de preferência uma parede “complicada” onde ninguém espera ver um grafite, mas também na técnica do lettering. Pessoalmente, gosto de lugares bem “queimados”, onde posso trabalhar minuciosamente o estilo, um contraste que contribui diretamente para o impacto. Enquanto muitos priorizam a rapidez, eu dedico tempo para me instalar, para me apropriar do espaço como se estivesse em um ambiente legal. Para obter o máximo de eficácia, pinto letras bastante dinâmicas, uso cores muito vivas e trabalho muito com a luz. Na rua, ninguém para quando estou fazendo o esboço, mas assim que aplico luz e cores bastante saturadas, algo acontece porque transmito uma energia. Alguns transeuntes sorriem, mesmo quando não gostam ou acham isso brega; outros param. Além de uma interação real com o espaço em que estou, busco o diálogo com o público.

O que a luz representa para você e como ela se tornou parte essencial do seu trabalho?
Para mim, a luz é a vida. Ela é vital: sem luz, não há vida. Além disso, não falamos de luz interior, de pessoas radiantes, de aura…? A maioria de nós, diante de algo luminoso, sente a energia que emana dele. É essa energia que procuro transmitir. Num mundo complicado, sem graça, onde os espaços urbanos costumam ser austeros e impessoais, o desafio é injetar um pouco de positividade, abrir uma pausa nessa rotina de “metro, trabalho, dormir”. Mais do que um simples efeito, a luz se tornou para mim um tema à parte, que agora estrutura meu trabalho. É por isso que escolho cores vibrantes: quanto mais saturadas elas são, especialmente as fluorescentes, mais energia elas transmitem. Para não confinar a luz, substituí os contornos por luzes para que ela transborde, pulse, se difunda. Isso não está nos códigos do grafite, mas depois de vinte anos de prática, assumo essa escolha [risos].

Por que você decidiu “teorizar” uma prática tão instintiva quanto o grafite?
Isso tem a ver, antes de tudo, com a minha personalidade, com a minha maneira de funcionar. Seja qual for o assunto, preciso analisar, decompor, testar antes de agir. É também porque percebi, na minha primeira exposição, que o lettering, seja na rua ou em uma galeria, não era visto da mesma forma que o figurativo. Enquanto um retrato é imediatamente compreensível, o grafite exige algumas chaves de interpretação. Isso se confirmou, aliás, durante as oficinas de iniciação que tive a oportunidade de ministrar. Ao explicar os fundamentos do grafite – a arquitetura da letra, o movimento, o ritmo… –, o público entende melhor, consegue se interessar e até mesmo apreciar. Depois de mais de vinte anos de grafite, teorizar é, portanto, uma maneira de torná-lo acessível, mas também de transmitir um pouco da cultura hip-hop pela qual sou apaixonado, que não se resume apenas a desenhar nas paredes [risos].

Foi por esse mesmo motivo que decidiste introduzir o figurativo numa prática centrada na caligrafia?
Sim. O figurativo funciona então como um cavalo de Tróia: por ser imediatamente legível, ele chama a atenção. Eu sempre parto de um modelo, muitas vezes de uma fotografia. Preciso de uma base que depois vou interpretar. Mas o que não se vê diante da obra finalizada são as etapas pelas quais passo, com uma fase quase fotorrealista que depois altero, “quebro”. Por enquanto, construo antes de desconstruir, mesmo que esteja tentando, aos poucos, ir em direção a um maior desapego, a deixar mais espaço para o acaso…

Como você concilia o grafite com o trabalho em tela?
O grafite não se limita a nada, ele está fora de qualquer moldura! O próprio princípio dele é existir apenas no espaço público, sem autorização, com total liberdade! Na tela, então, eu nunca pinto grafite; eu faço uma interpretação dele. No mesmo espírito do quadro de René Magritte “Isto não é um cachimbo” – onde o cachimbo não é um cachimbo, mas a imagem de um cachimbo –, no meu trabalho de estúdio, o grafite se torna o tema. Apenas proponho uma representação dele, com a intenção de remeter o público de volta para a rua, onde ele realmente existe.

Como você está lidando com esse trabalho em tela?
Depois de mais de duas décadas nas ruas, senti a necessidade de me desafiar, de me arriscar com uma técnica que ainda não dominava totalmente. Por um lado, pintar em tela é doloroso porque tenho uma relação um pouco especial com o fracasso – aceito-o com dificuldade –, mas é também isso que me leva a superar-me, a evoluir, já que estagnar não é uma opção para mim. Por outro lado, esse trabalho é estimulante. Ele alimenta meu grafite, me leva a explorar outras possibilidades, que depois posso trazer de volta para a rua. Pintei em tela há apenas três anos; então, ainda estou na fase de exploração, mesmo com vinte e cinco anos de grafite! Vai demorar um tempo até eu ficar satisfeito [risos]. Prefiro avançar passo a passo, construir bases sólidas, esclarecer os caminhos que quero seguir… O que não me impede de ter desejos e projetos, como desenvolver uma coleção sobre viagens.

Aonde esse trabalho no ateliê te leva?
Eu me pergunto muito sobre o que quero dizer, o que é importante para mim, o que desejo transmitir. Já tenho algumas respostas, que vou formulando e assumindo aos poucos. Na tela, sinto que vou muito mais fundo dentro de mim, e assim me revelo mais, o que é complicado porque sou bastante discreto, um pouco à margem. Estar em uma galeria me obriga a me expor. Como nunca é fácil sair da zona de conforto, quebrar as barreiras que impomos a nós mesmos, primeiro precisei entender o funcionamento e os códigos do meio artístico, que eu não conhecia, para encontrar meu lugar.

Por que escolheste “Rémanence” como título da tua próxima exposição e o que vamos poder ver?
“Rémanence” remete ao que a rua deixou nas minhas telas e ao que permanece sob as camadas de tinta: um traço, uma memória do gesto que perdura no tempo. Para essa exposição individual, escolhi “remixar” telas de uma exposição anterior, como um sample na música, trabalhando com sobreposições, apagamentos, camadas… Eu mascarei, revelo, empilho… mas nada desaparece completamente: mesmo o que está enterrado faz parte da história da tela. Essa lógica também permeia as peças em processo de criação, sejam elas figurativas, centradas na caligrafia ou construídas em torno de momentos suspensos. Todas evoluem enquanto permanecem nas minhas mãos. E como o que está fora do quadro continua sendo central no meu trabalho, as obras funcionam como fragmentos: a imagem, incompleta, transborda, ligada a algo que se desenrola em outro lugar, no que não se vê. O grafite aparece ali como o traço de uma passagem, a marca de uma presença. A tipografia, às vezes visível em primeiro plano, às vezes escondida no fundo, às vezes fazendo parte do cenário, atesta então essa presença. Mesmo nas obras figurativas, as letras, muitas vezes esboçadas, testemunham um gesto inacabado destinado a se prolongar. É esse processo que me interessa: dar conta da construção de uma letra, camada por camada, sem nunca a fixar completamente. Meu trabalho está aí, nessa tensão, um work in progress permanente até que alguém se aproprie dele.

A não perder
: «Rémanence»

De 15 de maio a 1º de junho de 2026
Terça, quarta, sexta e sábado, das 10h às 19h; quinta-feira, das 14h às 19h; domingo, das 10h às 15h
Galeria Drip’s
Rua Martainville, 210 76000 Rouen
Instagram: @galeriedrips

Disek: @d.i.s.e.k

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