Le Petit-Quevilly, um dos principais centros da arte urbana
Essa cidade nos arredores de Rouen pode, de fato, se orgulhar de um percurso com nove obras de arte urbana originais.
Tornar a arte acessível a todos: essa definição de Arte Urbana – uma entre tantas outras – ganha todo o seu sentido nesta cidade com pouco menos de 23 mil habitantes. No âmbito da remodelação da avenida Jean Jaurès, um eixo multimodal – bonde, carro, ciclovia e via para pedestres – no coração da cidade, a prefeitura teve a ideia de encomendar um percurso artístico tão original quanto ambicioso, cuja realização foi confiada à Urban Art Agency (U2A). Essa agência, com sede em Paris e Marselha, fundada em 2018 por Sébastien Lis e Julien Dufossey após uma trajetória no meio associativo, desenvolve projetos artísticos sob medida no espaço público, em estreita ligação com o território e seus moradores. A ela devemos, entre outros, o festival Label Valette, o reservatório de água de Gien, no Loiret, pintado por Taquen, ou a fachada do Point Éphémère, realizada por Potter no 10º distrito de Paris, no âmbito dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos.
Prioridade ao ser humano
. Para esse projeto, a U2A simplesmente ganhou uma licitação. Segundo Sébastien Lis, “além do nosso talento óbvio e do nosso profissionalismo [risos], acho que convencemos os membros do comitê de coordenação por sermos proativos: uma solução completa que engloba a seleção de artistas, a mediação e o acompanhamento do público jovem, tanto na escola quanto em atividades extracurriculares. Não se tratava simplesmente de colocar obras nas paredes, mas de criar uma intervenção que fizesse sentido, inserida num diálogo real com o local e seus moradores. Só pra contar uma história: quando apresentamos nosso projeto, a gente tinha acabado de sair de uma obra sem ter tido tempo de trocar de roupa, e nossas roupas ainda estavam manchadas de tinta. Esse detalhe, ao que parece, provou ao comitê que a gente realmente estava colocando a mão na massa.
Entre as muitas realizações da U2A, esse projeto se destaca pela sua duração. “É a primeira vez que nos comprometemos por três anos com uma prefeitura que nos dá essa confiança a longo prazo”. Esse projeto também ofereceu um amplo campo de experimentação: “intervir não só nas paredes, mas também no mobiliário urbano e em várias instalações; propor uma grande diversidade de estilos, do abstrato ao figurativo e ao ilustrativo”. É também a sua dimensão humana que o torna único. “Le Petit-Quevilly é um bairro popular e os moradores, sem dúvida, apreciam mais nossas intervenções do que em bairros mais abastados. O feedback deles nos toca profundamente. Com o Julien, sempre colocamos o ser humano no centro, seja nas nossas relações artísticas ou profissionais. Aliás, oferecemos aos moradores pequenas lembranças, como impressões autografadas pelo Pantonio para os 72 moradores do prédio cuja fachada ele acabou de pintar. Um gesto simples para que cada um leve um pouco de arte para casa”.
Uma seleção exigente
A relação de confiança entre os representantes da prefeitura e os dirigentes da U2A é, sem dúvida, uma das razões do sucesso desse projeto. “O comitê diretor nos deu alguns temas – igualdade entre homens e mulheres, a relação entre o homem e seu ambiente, a convivência… – que conseguimos respeitar, ao mesmo tempo em que deixamos aos artistas liberdade suficiente para se expressarem de verdade”, destaca Julien Dufossey. Depois de selecionar os locais, definir os meios de expressão e obter as autorizações necessárias das partes envolvidas, restava selecionar os artistas. “O line-up foi se formando aos poucos. Fizemos propostas conforme avançávamos, com perfis diferentes, de acordo com cada local, buscando complementaridade e diversidade. Alguns artistas gostariam de participar, mas não foi possível por motivos financeiros. No fim das contas, encontramos as pessoas certas”.
Embora a maioria das obras tenha a assinatura de artistas franceses, com exceção do belga Jaune, para o último mural, a escolha de Pantonio se impôs. “Para nós, foi óbvio! Aliás, insistimos para que a obra fosse confiada a ele e o comitê concordou rapidamente”, lembra Julien. “Com seu estilo fluido, Pantonio conseguiu suavizar a rigidez geométrica da fachada e, com seu domínio do movimento, quebrar as linhas excessivamente rígidas”. E o resultado está à altura das expectativas!

PANTONIO, COM TOTAL TRANSPARÊNCIA
Esse artista, natural dos Açores e radicado em Lisboa, se destacou como um mestre do movimento, com suas figuras, animais fantásticos, peixes, tartarugas e coelhos de linhas fluidas e imediatamente reconhecíveis. Para o mural que decora a fachada de um prédio da residência Jaurès, da incorporadora CDC Habitat, ele optou pela continuidade com pássaros, mas também pela originalidade com um jogo de transparências notável.
Como você entrou nesse projeto?
Fui contatado pela Urban Art Agency e, assim que vi a foto do local, aceitei na hora. O desafio era óbvio: trabalhar com a arquitetura, as limitações do prédio, o espaço reduzido… e essas varandas bem marcantes que dão forma a toda a fachada.
Tiveste alguma surpresa boa ou ruim quando chegaste lá?
Surpresas muito boas! Primeiro, ao descobrir a qualidade do revestimento: um reboco excepcional com uma textura única que me permitiu obter efeitos surpreendentes. Às vezes, a superfície é perfeita, mas tão lisa que praticamente não dá para fazer nada. Depois, tem a cor das árvores, que combina perfeitamente com a minha obra.
Como você escolheu o tema?
Estou numa fase da vida em que só tenho vontade de poesia, de ver as coisas como elas são. Não tenho nenhuma mensagem para passar, só quero deixar que a poesia do que pinto fale por si. Não tenho nenhuma mensagem a transmitir – apenas o desejo de pintar livremente, uma espécie de declaração de amor. Nesse mural, os pássaros que brincam entre os lençóis pendurados evocam essa relação entre o homem e seu ambiente, mesmo que, para esse projeto, eu não tivesse nenhuma restrição.
Justamente, essa ideia te permite abordar a transparência, o que parece ser uma novidade no teu trabalho?
A transparência é, antes de tudo, uma técnica. Pinto desde os 13 anos e nunca parei, então, felizmente, já domino um pouco [risos]. Na natureza, a transparência é um jogo de luz; na pintura, ela surge através de camadas sucessivas. Aqui, o reboco me permitiu brincar com ela de outra forma, aplicando a cor apenas na superfície das saliências. Foi interessante. Ser criativo é isso: fazer algo diferente todos os dias sem se deixar limitar.
Você está satisfeito?
Uma hora depois de terminar uma obra, a gente nunca fica realmente satisfeito [risos]. Ainda estou na emoção, não na análise. Tem coisas que eu gosto – a composição, o movimento –, outras que eu poderia ter melhorado – o formato dos prendedores de roupa, um pouco realista demais e não sugerido o suficiente, ou a cor branca dos lençóis. Até o segurança do shopping me chamou a atenção pra isso [risos]. Mas é preciso saber aceitar, assumir e parar por aí. Isso vai alimentar minha reflexão para as próximas peças.

3 PERGUNTAS PARA CHARLOTTE GOUJON, PREFEITA DE PETIT-QUEVILLY
Como surgiu esse projeto?
No âmbito da reforma da Avenida Jean Jaurès, o eixo principal da cidade e o trajeto do bonde que foi concluído há apenas dois anos, já tínhamos convidado dois artistas locais para pintar um retrato de Jean Jaurès e um mapa da cidade nas fachadas de prédios que pertencem à prefeitura. Vendo a boa recepção dos moradores, decidimos ir além.
É importante tornar a arte acessível dessa forma?
Somos um município onde os moradores, que às vezes enfrentam grandes dificuldades sociais, não costumam frequentar museus nem galerias. A ideia é tornar a arte acessível, “bem perto de casa”. Ao recorrer à Urban Art Agency, pudemos contar com o apoio deles e descobrir artistas que não conhecíamos. E o feedback tem sido excelente. Tanto nas conversas com os moradores quanto nas reuniões públicas, as reações são muito positivas, mesmo que cada um tenha suas preferências, claro; é isso também que dá vida à arte.
O projeto durou três anos. Foi uma escolha para garantir a sustentabilidade? Acima de
tudo, foi uma necessidade: primeiro, por causa das restrições orçamentárias, já que precisávamos distribuir o financiamento de um projeto ambicioso para um município do nosso tamanho; depois, para podermos nos organizar. Depois de escolher os locais, tivemos que conseguir as autorizações dos gestores de habitação social (CDC Habitat e Seine Habitat) ou da Metropólia, principalmente para as obras na via pública – os bancos de Petite Poissone ou o mural de Bebar na Ruche à vélos. Desde o início, estava previsto que a gente encerrasse o projeto em 2025. Mas, como a experiência deu certo e há outros setores na cidade que merecem, tudo continua em aberto.
© IG / Fabe Collage




