Os VLP: quatro vezes vinte anos e, mesmo assim, continuam na mesma!

Em 45 anos, a dupla marcou a história do grafite. Mas, embora Michel Espagnon e Jean Gabaret olhem com bastante satisfação — e com razão — para o caminho percorrido, eles continuam com os olhos firmemente voltados para o futuro.

Algumas das obras deles fazem parte — junto com as de Miss.Tic, Gérard Zlotykamien e, mais recentemente, de Epsylon Point — das aquisições recentes do Centre Pompidou. E duas galerias parisienses estão dedicando exposições a eles no início do ano letivo. É uma boa chance de conversar de novo com Michel Espagnon e Jean Gabaret, que não perderam nem um pouco da energia nem do humor mordaz.

A sua entrada no Centre Pompidou vem coroar a sua trajetĂłria?
Isso Ă© animador… Aos 90 anos, Georges Rouault dizia: “Estou apenas chegando”. NĂŁo vamos ser mais vaidosos do que ele [risos]. E tem um lado irĂ´nico: em 1987, a gente “atacava” o Beaubourg pintando, sem permissĂŁo, as cercas que cercavam o canteiro de obras. Hoje, a gente entra pela porta principal! Quando começamos nas Catacumbas, sĂł querĂ­amos pintar; nĂŁo achávamos que poderĂ­amos viver disso. TĂ­nhamos acabado de sair das escolas de arte e sentimos a necessidade de desaprender: quebrar a teoria, a tĂ©cnica, o nu, o desenho, a anatomia…

O que vocĂŞ acha da sua trajetĂłria?
É realmente incrível! Somos do tipo que vai em frente: seguimos em frente, senão ficamos entediados [risos]. E fizemos ótimos encontros. Uma noite, estávamos pintando em uma cerca perto de Beaubourg. Um garoto perguntou: “Posso pintar ao lado de vocês?”. A gente respondeu: “Claro, vai em frente”. Esse garoto era o Speedy Graphito. Nesse espírito de compartilhamento, organizamos em Bondy, em 1985, um grande encontro que reuniu Epsylon, Blek, Miss.Tic e muitos outros artistas em dois quilômetros de paredes ao longo do canal do Ourcq. Temos um monte de histórias como essa.

Mas, mesmo assim, não foi um caminho fácil…
Nunca tivemos um plano de carreira. Tudo aconteceu porque estávamos trabalhando. Nunca pintamos pra chamar atenção ou pra vender. Em 2016, o mural “Ceci n’est pas un graffiti” perto do Beaubourg – de novo! – nos trouxe um certo reconhecimento. Galerias, colecionadores e leiloeiras como a Artcurial passaram a se interessar por nós, enquanto antes eles só ficavam olhando o que a gente fazia… sem entender muito bem [risos]. E, hoje, continuamos tão apaixonados quanto sempre fomos.

Além dos VLP, o movimento como um todo parece estar ganhando reconhecimento…
Talvez as instituições francesas não queiram perder essa oportunidade enquanto as obras ainda não estão muito caras [risos]. Falando sério, já estava na hora! Quando Denys Riout lançou *Le Livre du graffiti* em 1990, os outros acadêmicos olhavam para ele de lado. Para eles, aquilo não era arte! No entanto, esse movimento já tem quase 50 anos e continua vivo. O grafite inovou principalmente ao sair do ateliê para ir para a rua e alcançar um público que não frequentava nem galerias nem museus.

O mercado tambĂ©m demorou um tempĂŁo para se interessar pelo grafite…
Pelo menos pelos artistas franceses. Nos anos 1980, nos Estados Unidos, Jean-Michel Basquiat e Keith Haring tiveram o apoio de Andy Warhol e de galeristas que rapidamente valorizaram o trabalho deles. Os galeristas franceses seguiram o exemplo. Em Paris, na galeria do Yvon Lambert, as vendas de alguns artistas americanos podiam ser feitas por telefone! NĂłs, por outro lado, nĂŁo estávamos nem aĂ­ para o mercado nem para as galerias… e eles tambĂ©m nĂŁo estavam muito interessados em nĂłs [risos]. O apoio era raro, tirando algumas iniciativas como as da agnès b. ou da prefeitura de Paris, que comprou várias peças nossas.

Você ainda defende a especificidade do “grafite parisiense”?
O que rolou em Paris Ă© bem diferente do que rolou nos Estados Unidos, porque a gente nĂŁo tem a mesma cultura. Eles se inspiram muito nos quadrinhos; nĂłs, nos neofauvistas, na Trans-vanguarda, na Figuração Livre… Temos toda uma histĂłria por trás de nĂłs. Nosso trabalho Ă© influenciado pelo impressionismo, pelo expressionismo, pelo surrealismo… Nas nossas pinturas tambĂ©m aparecem referĂŞncias a Baselitz, Wittgenstein, Malevich… Estamos abertos a estilos e pintores bem diferentes; sĂł nĂŁo aceitamos idiotas.

Uma das caracterĂ­sticas desse grafite parisiense Ă© o engajamento polĂ­tico…
Na França, pelo menos para a nossa geração, tudo começou em 1968. Éramos rebeldes, com uma visão política, um desejo de coletividade e uma mentalidade do tipo: “Você consegue se quiser”. Essa rebeldia ainda está presente. Não ficamos mais brandos com a idade, pelo contrário, considerando a época. Para a gente, pintar – e ainda mais na rua – já é, por si só, uma posição política. Mas não queremos ser agressivos: o objetivo é fazer com que todo mundo reflita. Às vezes ficamos surpresos com o que algumas pessoas veem nas nossas pinturas. Isso nunca é errado, cada um interpreta com base na própria experiência de vida.

O engajamento tambĂ©m passa pelo uso de diferentes meios…
Vamos deixar claro, antes de mais nada, que, pra gente, grafite nĂŁo Ă© vandalismo. Nunca pintamos uma propriedade particular. Por outro lado, reaproveitamos as cercas cobertas de cartazes e tambĂ©m transformamos painĂ©is publicitários. SĂł porque alguns tĂŞm dinheiro, nĂŁo significa que tenham o direito de privatizar o espaço pĂşblico. TambĂ©m trabalhamos bastante com materiais recuperados: tábuas, zinco dos telhados de Paris, papelĂŁo… Tem um lado da Arte Povera e tambĂ©m uma dimensĂŁo de reciclagem, que tambĂ©m vem de 1968.

Por que voltaram a usar papelĂŁo recentemente?
As obras da exposição “Karton Plein”, na Artistik Rezo, foram criadas durante a pandemia de Covid. Com as lojas fechadas, era difícil achar telas, mas a gente encontrou umas cinquenta caixas grandes de embalagem de bicicletas na frente de uma loja vizinha. É um material que a gente curte: “simples”, áspero como as superfícies da rua, mas tão resistente quanto uma tela. Algumas peças dos nossos primeiros trabalhos, pintadas com tinta industrial, aliás, resistiram muito bem. E tem também essa ideia do papelão que “embala” nosso mundo de consumo ou se torna uma “tela” na qual projetar nossas visões.

Como esse perĂ­odo tĂŁo especial te inspirou?
Era um clima estranho, com esse meio confinamento e, para os artistas, a sensação de serem considerados não essenciais, ao mesmo tempo em que sentiam uma necessidade muito forte de criar. Nessas circunstâncias, a pintura salva. A gente acompanhava bastante as notícias: a gente projeta quem a gente é e o que percebemos. A morte de George Floyd [em 25 de maio de 2020, nota do editor] nos inspirou a criar “I Can’t Breathe!”. Pintamos até esgotar as telas de papelão, cerca de cinquenta obras, principalmente em formatos grandes.

Sua segunda exposição do inĂ­cio do ano dá destaque ao Zuman…
Essa personagem, criada em 2000 e que serve de fio condutor da série “En Rue Libre”, da Lélia Mordoch, marca uma verdadeira virada no nosso trabalho. Esse homem universal estilizado, símbolo de criatividade, virou nosso emblema, quase nosso logotipo. VLP já é o avatar da dupla, o pintor; Zuman é a sua encarnação. Antes dele, nosso trabalho ia um pouco para todos os lados. Esse personagem nos permitiu nos posicionar melhor. Embora isso pudesse ter se tornado uma limitação, ele nos dá, pelo contrário, total liberdade, e cada tela continua sendo diferente.

Esse personagem já apareceu de várias formas…
O Zuman tá presente em todas as nossas pinturas, mas de maneiras bem diferentes. Às vezes, a gente até precisa procurá-lo. Também desenvolvemos o conceito em 3D, principalmente com esculturas em que ele ganha um ar totêmico. Um arquiteto chegou até a nos propor a ideia de um prédio com o formato da cabeça do Zuman! Tínhamos também um projeto: uma grande estrutura de aço, pintada inicialmente de vermelho e depois deixada à disposição dos grafiteiros. A gente teria filmado a evolução dela e, quando o Zuman estivesse totalmente coberto, teríamos repintado de outra cor pra começar de novo. Infelizmente, uma mudança na maioria municipal acabou com o financiamento.

VocĂŞ mencionou os grafiteiros. Qual Ă© a sua visĂŁo da cena urbana atual?
A gente ainda se considera artistas urbanos. Só porque trabalhamos bastante no estúdio, não quer dizer que não estejamos mais na rua. As pichações simples até nos chamam mais a atenção do que algumas obras superelaboradas, porque a gente curte essa espontaneidade delas. Mas, mesmo sendo pioneiros, não cabe a nós decidir quem é legítimo ou não. Nos anos 1980, se colocamos um trem nos trilhos, isso não nos dá o direito de escolher quem entra nos vagões. Isso seria contra o espírito do movimento. Por outro lado, hoje em dia, muitas coisas que já vimos e revimos estão voltando à tona. Seria preciso uma renovação do grafite: não só pinturas bonitas, mas propostas sólidas, com conteúdo e rebeldia.

A nĂŁo perder
: “Karton Plein”

De 17 de setembro a 7 de outubro de 2026
Artistik Rezo
14, rue Alexandre Dumas 75011 Paris
galerieartistikrezo.com
Instagram: @galerieartistikrezo

“En Rue Libre”
De 15 de outubro a 21 de novembro de 2026
Galeria Lélia Mordoch
Rua Mazarine, 50 75006 Paris
leliamordoch.com
Instagram: @leliamordochgallery

VLP: @vlpvivelapeinture

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