Zezão: trinta anos revelando o invisível

Há trinta anos, Zezão transforma os recantos esquecidos de São Paulo e do mundo inteiro em território poético e político. Seu azul icônico ilumina as áreas que a cidade prefere ignorar.

Figura de destaque da arte urbana brasileira, Zezão comemora trinta anos de carreira reivindicando uma trajetória única: a de um artista que escolheu as ruínas, os porões e os espaços esquecidos de São Paulo como seus primeiros ateliês. Pioneiro das intervenções clandestinas nos esgotos e galerias de drenagem, ele desenvolveu uma linguagem singular – linhas fluidas, formas abstratas e azul incandescente – que o levou tanto aos túneis mais tóxicos quanto às instituições internacionais. Sua obra explora o que a cidade esconde, rejeita ou apaga, construindo uma ponte entre grafite, fotografia, instalação e arte contemporânea.

Por que você começou a explorar os espaços “invisíveis” de São Paulo no final dos anos 1990?
No final dos anos 1990, São Paulo apresentava uma paisagem urbana fortemente marcada pelo abandono e pela transição. A cidade ainda guardava muitos vestígios da industrialização dos anos 1970 e 1980. As fábricas e os armazéns estavam lá, expostos e esquecidos, mas despertavam em mim muita curiosidade e faziam parte do meu dia a dia. A cidade mostrava ali seus resquícios, suas falhas, mas também suas possibilidades. Quando comecei a descer e a visitar a parte subterrânea de São Paulo, descobri um universo paralelo: longos túneis de drenagem, cheiro forte, silêncio total e um espaço da cidade que ninguém via. Percebi que meu trabalho poderia seguir um caminho singular, distante da lógica tradicional do grafite nas avenidas e nas paredes visíveis.

O que te atrai nessas áreas esquecidas, abandonadas ou inacessíveis?
Esses espaços esquecidos me atraem porque oferecem uma sensação única de liberdade criativa e a total ausência de interferência externa. Nos anos 1990, quando comecei a entrar em fábricas abandonadas, percebi que ali tinha autonomia para experimentar sem regras, sem disputas por paredes e sem a pressão do contexto da rua. Eram lugares onde eu podia desenvolver minha própria linguagem, no meu ritmo, do meu jeito. Esses ambientes também tinham características físicas que me inspiravam: paredes deterioradas, concreto bruto, estruturas enferrujadas, infiltrações, marcas do tempo. Não se tratava apenas de pintar em um lugar abandonado, mas de dialogar com a história que aquele lugar carregava e com certos seres ou espíritos que habitavam esses espaços. Esse tipo de cenário me permitiu desenvolver uma pintura que não dependia do “público”, mas do ambiente e da experiência. Foi aí que consolidei uma identidade que não se parecia com nenhuma outra forma de expressão, com nenhum outro artista urbano.

Ao levar minha linguagem a ambientes degradados, eu coloco em evidência o que a cidade tenta esconder.

Você já passou por situações perigosas durante suas explorações urbanas nas “entranhas” de São Paulo?
Quando comecei a entrar em fábricas abandonadas e, depois, nas galerias de águas pluviais e nos túneis subterrâneos de São Paulo, não havia nenhuma informação disponível. Posso dizer que nem sei como consegui sobreviver. Atravessei áreas alagadas que corriam risco de desabar, na escuridão total, cheias de gases acumulados, ratos, baratas e lixo. Mas também fiz encontros incríveis por lá – moradores de rua, catadores, trabalhadores informais –, pessoas que conheciam esses territórios melhor do que qualquer técnico. Muitas vezes, eles me alertaram sobre passagens perigosas e me ajudaram a entender a dinâmica do lugar. Esses contatos foram importantes para entender que a cidade tem camadas humanas tão invisíveis quanto as arquiteturas.

Como surgiram e evoluíram a forma e a cor azul, que são a tua marca registrada?
Grande parte dessa construção veio da interpretação do público. Muitas pessoas começaram a associar o azul ao universo da água, do mar, do céu, e essas interpretações ampliaram a compreensão do meu trabalho. O azul possui inúmeros significados culturais, psicológicos e simbólicos, e isso abriu espaço para que minha produção fosse interpretada de diferentes maneiras, sem que eu precisasse restringi-la a um único sentido. A forma que desenvolvi também seguiu esse processo. Minha intenção inicial era criar uma linguagem própria, que não dependesse nem das letras nem do desenho figurativo. Com a presença constante do azul, essa forma acabou gerando uma assinatura visual reconhecível. Hoje, a forma e o azul fazem parte da minha identidade artística, não porque eu tenha definido um conceito rígido, mas porque se consolidaram pela experiência, pela repetição nos ambientes em que trabalhei e pela maneira como o público interpretou essas escolhas ao longo do tempo.

Você vê seu trabalho como uma forma de ativismo?
Meu trabalho aborda temas como o consumo excessivo, a poluição e o abandono porque esses elementos fazem parte dos lugares onde eu atuo. Não são assuntos que eu escolhi: eles fazem parte do contexto real que encontrei lá. Ao levar minha linguagem para ambientes degradados, eu coloco em evidência o que a cidade tenta esconder: o lixo, o excesso, a falta de manutenção, o desprezo por certas áreas e por certas populações. Isso causa um impacto e provoca uma leitura crítica, convidando as pessoas a verem a cidade de outra forma.

Hoje vejo os espaços “invisíveis” como lugares que contam o passado, o presente e até mesmo as falhas do sistema.

Como você concilia a liberdade absoluta das intervenções clandestinas com as limitações do mercado de arte?
Em espaços subterrâneos e abandonados, trabalho sem regras, sem prazos e sem expectativas externas. É lá que eu experimento, que falho, que testo materiais e que desenvolvo minha linguagem de forma autônoma. Nos projetos institucionais, existe outro tipo de compromisso: em relação às questões técnicas, ao orçamento, aos prazos, à curadoria… Hoje, concilio os dois porque entendi que cada um tem seu papel. A clandestinidade me deu uma identidade, uma pesquisa e uma linguagem; o circuito institucional, visibilidade e recursos para expandir meu trabalho para outras escalas e materiais. O elo entre os dois é a coerência da linguagem – as mesmas linhas, estruturas e cores que nasceram nos porões continuam aparecendo nas galerias e museus. Não tento reproduzir a experiência clandestina nas instituições. Levo para lá a linguagem que nasceu ali, mas com o profissionalismo que esses contextos exigem.

Quando você começou a incorporar objetos nas suas obras?
Comecei a incorporar objetos encontrados no início dos anos 2000, quando percebi que muitos dos materiais presentes em espaços abandonados carregavam a própria história da cidade: portas antigas, espelhos, bandejas de metal, madeira de barricadas, objetos quebrados ou desgastados pelo tempo. Eles já tinham marcas, textura e memória, e isso dialogava diretamente com a minha linguagem. Além de seu peso histórico, comecei a ver esses materiais como símbolos do descarte urbano: objetos antes úteis jogados no lixo, na rua ou em terrenos baldios por causa do consumo excessivo. Essa abordagem conecta a estética do meu trabalho a questões de sustentabilidade, memória e crítica ao consumo. Incorporar objetos encontrados tornou-se parte da minha pesquisa em arte contemporânea, não apenas como suporte, mas como um comentário sobre o ciclo de uso e descarte que molda a cidade.

Como mudou o seu olhar sobre São Paulo desde as suas primeiras explorações?
O meu olhar mudou bastante ao longo das décadas. No início, eu via São Paulo como um vasto território a ser explorado, principalmente seus espaços vazios, suas ruínas e seus subterrâneos. Tudo era novidade, curiosidade e descoberta. Eu tentava entender como a cidade funcionava por dentro, literalmente. Com o tempo, meu olhar ficou mais crítico e mais amplo. As mesmas estruturas que eu via como espaços de experimentação foram, aos poucos, revelando questões sociais, históricas e urbanas mais complexas: abandono, desigualdade, consumo excessivo, falta de manutenção e a maneira como certas áreas são completamente ignoradas pelo poder público e pela própria população. Se, no início, eu explorava os subterrâneos por curiosidade e liberdade, hoje vejo esses espaços como documentos urbanos, lugares que contam o passado, o presente e até mesmo as falhas do sistema. Meu olhar amadureceu junto com meu trabalho: ele não é mais apenas exploratório, mas também analítico, consciente e conectado às transformações da cidade.

Dá uma olhada
no Zezão:
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