Ensemble Reel

Walls & Love agita Valência

Com seus murais monumentais e suas obras temporárias, o Walls & Love insere a arte urbana no patrimônio cultural de Valência.

Herdeiro de uma primeira iniciativa chamada Wall & Love, o festival Walls & Love se consolidou graças à tenacidade de um coletivo de artistas liderado por Vincent Lausade, também conhecido como Sowan, e ao apoio constante da cidade de Valence. Três semanas de pintura, encontros e momentos compartilhados agora dão vida às fachadas da cidade. Verdadeiro marco cultural, o festival segue uma linha diretriz clara: mostrar a diversidade das expressões da Arte Urbana, transformá-la em uma alavanca de diálogo e abertura, e inscrever as obras de forma duradoura no tecido social urbano.

Como surgiu o festival Walls & Love?
Ele surgiu durante o confinamento, impulsionado pelo meu desejo de criar um projeto artístico marcante em Valence. No início, eu tinha imaginado módulos itinerantes para que os murais circulassem de bairro em bairro. Embora a prefeitura tenha demonstrado interesse desde o início, a ideia não pôde ser concretizada. Entretanto, uma proprietária nos ofereceu uma parede bem no centro da cidade para uma primeira realização em 2021, renovada em 2022. Em 2023, junto com o Benoît Humbert, fundamos a associação Wall & Love e lançamos o festival com o mesmo nome. Mas depois de duas edições – 2023 e 2024 –, nos separamos. Eu quis continuar, ele não, impedindo-me de manter o mesmo nome. Este ano, lancei então o Walls & Love, do qual sou o diretor artístico. O festival agora é organizado pelo coletivo Sorry Graffiti – composto por 10 artistas profissionais –, que eu fundei e do qual sou porta-voz, e que por sua vez está vinculado à Associação TBM, da qual sou presidente. Eu sei, é meio complicado…

Qual é a linha orientadora da tua programação artística?
A programação pretende ser decididamente eclética. Variar as abordagens, as sensibilidades e as linguagens plásticas permite ampliar a visão. Por trás disso, há uma vontade de apresentar ao público a diversidade da arte de rua e do muralismo. Oferecer essas obras monumentais no espaço público é semear imagens que, aos poucos, alimentam o olhar. Se uma parede, por natureza, separa, nossa ambição é transformá-la em um lugar de aproximação. Assim, na rua, um mural se torna um pretexto para que os transeuntes parem, troquem ideias, conversem.

Como vocês selecionam os
artistas?
Normalmente, fazemos isso por meio de uma chamada para inscrições, mas às vezes convidamos talentos cujo trabalho conhecemos e apreciamos… uma continuidade assumida. Este ano, por falta de tempo, optei por uma abordagem diferente, selecionando artistas que não fazem parte da cena regional. O objetivo é duplo: oferecer aos fãs a oportunidade de descobrir novos nomes em Valence e enriquecer o panorama artístico da região, com destaque para três murais monumentais permanentes.

Este ano, quais artistas assinaram os murais permanentes?
A dupla parisiense Ensemble Réel, o italiano Soda e a marroquina Tima. Essa escolha sempre surge de um diálogo entre a prática artística e a parede, sua localização, sua “matéria” e sua história. Pois, embora os artistas tenham carta branca, é preciso que o universo deles entre em sintonia com o local. Assim, o Ensemble Réel trabalhou em uma parede antiga e desgastada na rue Châteauvert, marcada por camadas de painéis publicitários repintados. Eu sabia que essa superfície de 120 m² os atrairia, já que a prática deles encontrava ali um eco direto. Aliás, eles optaram por manter a pátina intacta. Para o Soda, a cidade disponibilizou uma parede de 100 m² do ginásio Zammit, localizado perto da estação. Uma arquitetura bruta, feita de concreto e metal, que seu universo plástico poderia realçar. Aliás, não foi nem meu inglês nem meu italiano que o convenceram, mas sim a parede que eu tinha reservado para ele [risos]. Confiou a terceira parede de 80 m², propriedade do nosso parceiro Valence Romans Habitat, à Tima, uma jovem artista marroquina que descobri num festival e que assinou aqui o seu primeiro mural na França. A tonalidade da parede dialogava naturalmente com sua paleta de cores e suas composições. Sua intervenção, que permitiu fixar um mural monumental em um bairro popular, foi acompanhada por um trabalho de mediação: cafés compartilhados com os moradores, trocas com as escolas, atenção dada ao tecido social local. A presença de Tima também atendia a uma exigência de diversidade, já que o festival se propõe a ser paritário.

O festival também apresenta obras efêmeras…
Sim. Assim como na primeira edição, aproveitamos a estrutura de um antigo quiosque bem no centro da cidade, em parceria com a Câmara de Comércio de Valence. A cada edição, ele relembra a essência do grafite. Pintado várias vezes durante o festival, ele marcou o ritmo do evento desde a abertura até o encerramento. A novidade deste ano foi convidar duplas de artistas para reafirmar a dimensão coletiva da prática: Jerc e Fokus, Boye e Votour, Lemak e Miets. Só o Klemz, como convidado e de fora do coletivo, trabalhou sozinho. A obra dele vai ficar exposta por um ano. Essa experiência abre novas possibilidades para duplas improváveis entre dois artistas com universos artísticos bem diferentes em um mural monumental… Um diálogo que quero continuar nas próximas edições.

Qual foi a novidade da edição de 2025?
Um jam de grafite: uma prática coletiva em que vários artistas pintam ao mesmo tempo. Esse formato, que está na origem da cultura do grafite e hoje é cada vez mais raro, me pareceu essencial. É também uma forma de honrar a história do coletivo Sorry Graffiti, que há muito tempo está acostumado a pintar junto debaixo da ponte das Lônes. A jam reuniu Braga, Nyota, Votour, Jerc, Amsted e Fuego na parede da escola C. Seignobos. Lá, realizamos oficinas com os alunos. Toda a escola foi repintada, o que foi recebido com entusiasmo pelos professores, pelas famílias e pelos alunos.

E quais foram os destaques?
O aperitivo organizado em frente ao mural do Ensemble Réel. Com a caravana-bar Bulles & Barule, criamos um ponto de encontro temporário onde os moradores do bairro, que já tínhamos conhecido durante a realização do mural, voltaram para tomar um drinque, bater papo e conhecer os artistas. Outro ponto alto: o encerramento do festival ao pé do mural realizado em 2023 por Ciclope, com uma noite que reuniu os bares do bairro, uma pintura ao vivo em um veículo e DJs da cena eletrônica local. Por fim, uma exposição ao ar livre apresentou vinte fotos do coletivo fotográfico Les Chasseurs d’images Valentinois, que acompanharam o festival do início ao fim. Essa comparação entre os murais e suas memórias fotográficas ofereceu outro ponto de vista sobre o evento, ao mesmo tempo em que valorizou o trabalho dos fotógrafos locais. Três semanas marcadas por esses momentos compartilhados!

O que vocês oferecem aos artistas convidados?
Além do apoio logístico e de uma ajuda financeira, oferecemos principalmente um acolhimento familiar, mesmo que eles fiquem hospedados em um hotel. Gostamos que os artistas se sintam em casa, integrados a uma equipe unida. Tenho o apoio do meu irmão Jerc, da minha companheira, do coletivo e dos amigos, e essa dimensão permeia todo o festival. O contexto – uma cidade pequena – acentua ainda mais essa proximidade. Aqui, todo mundo se conhece e os artistas vivem tanto uma experiência criativa quanto uma aventura humana. As noites que passamos juntos no restaurante são uma oportunidade de fazer com que eles descubram a gastronomia local e de criar momentos de vida que ficam na memória.

Qual é o papel dos seus parceiros?
A prefeitura, que financia cerca de 70% do festival, a Valence Romans Habitat, a Câmara de Comércio de Valence e todos os nossos parceiros depositam total confiança em nós: sem aprovação prévia, sem necessidade de apresentar maquetes. Essa liberdade é muito valiosa, pois permite montar uma programação coerente e exigente, sem concessões. O escritório de turismo chegou até a incluir os murais no mapa oficial de Valence, ao lado dos monumentos, reconhecendo assim seu valor patrimonial. Todo esse apoio ajuda a inscrever o projeto de forma duradoura na paisagem da cidade.

Os artistas não têm, portanto, nenhuma restrição, mas será que eles têm consciência de que não podem expressar tudo no espaço público?
Não queremos criar tensões nem colocar comunidades ou formas de pensar umas contra as outras. Mas não nos proibimos de nada! Algumas obras, aliás, têm um conteúdo humanista ou revelam a fragilidade da natureza de forma intrínseca e não frontal. Gosto de lembrar que o ato de pintar uma fachada já é, por si só, um gesto engajado: ele reúne os moradores em torno de um mural em construção, convida-os a parar, tomar um café ou um chá, conversar… Criar laços, promover o encontro, esse é o nosso compromisso mais constante.

Ao contrário do ano passado, quando pintaste um mural monumental de 190 m², este ano foste apenas o organizador. Foi uma escolha?
Sim, uma escolha consciente, porque me realizo tanto na minha prática pictórica, nas minhas participações pontuais em outros festivais, quanto no meu papel de professor. A organização do Walls & Love responde a outro desejo: empreender, criar um encontro em Valence, aproveitar as possibilidades que a cidade oferece e promover belos encontros. Um pedaço de vida, uma experiência acima de tudo humana…

Já estás pensando na próxima edição?
Nada está definido, mas as linhas gerais estão começando a se delinear. Primeiro, vamos reservar um tempo para conversar com a equipe: os comentários deles, sempre valiosos, alimentam a evolução do festival. Os murais monumentais continuarão no centro do projeto – três ou quatro, no máximo –, pois marcam o território e inscrevem o evento na cidade. Mas é importante não cair na inflação para que o Walls & Love continue sendo uma aventura rica em humanidade. O jam vai rolar de novo, pois mostrou toda a sua relevância. Também queremos valorizar melhor esses momentos de vida ao pé dos murais, programando-os como verdadeiros destaques. Por fim, a abertura para outras disciplinas – dança, teatro, artes visuais… – em parceria com associações locais, permitirá ampliar ainda mais o leque de encontros. A ambição continua a mesma: oferecer momentos de criação e compartilhamento que tragam um pouco de alegria em um período complicado.

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