Tegmo e Clément Herrmann: diálogo em fragmentos
Ao combinar suas abordagens, Tegmo e Clément Herrmann criam retratos híbridos, a meio caminho entre reflexo e representação.
A colaboração entre Tegmo e Clément Herrmann apresenta uma gramática visual singular, na qual a figura humana se torna um espaço de hibridização, um limiar onde o identificável e o difratado coexistem. Para Tegmo, o espelho, longe de ser uma simples superfície refletora, transforma-se em arquitetura, um local de difração, uma ferramenta de exploração e análise. Em contraponto, a pintura de Clément Herrmann introduz um rosto expressivo que, submetido à anamorfose, se recompõe ou se altera de acordo com o ângulo de visão, acentuando ainda mais a confusão perceptiva. Dessa articulação nasce uma imagem em movimento, onde o olhar oscila entre seu próprio reflexo e a figura representada, onde se articulam introspecção, confronto e o olhar voltado para o outro. Um jogo perceptivo que combina domínio técnico e poder reflexivo.
O que te levou a querer trabalhar juntos?
Clément Herrmann: O volume, algo em que o Tegmo vem trabalhando há muito tempo, enquanto eu entrei nessa área mais recentemente, há dois ou três anos. Quando ele me propôs experimentar uma obra a quatro mãos, por ocasião de uma exposição coletiva no Cabaret du Chat Noir, eu simplesmente respondi: “Por que não? Vamos tentar”.
Tegmo: Eu conhecia o trabalho do Clément e, quando ele começou a trabalhar com o volume, a ideia de uma colaboração surgiu naturalmente. Nossas linguagens – a fragmentação reflexiva para um, a decomposição pictórica para o outro – podiam se confrontar, mesmo que eu não seja sensível ao figurativo e ao hiper-realismo. Ainda mais porque, humanamente também, o vínculo já existia.
Clément Herrmann: O “por que não” se tornou uma evidência. No início de outubro, por ocasião de uma das minhas exposições individuais na Macha Galerie, apresentamos nossa primeira obra em conjunto.
Como vocês descreveriam suas abordagens?
Clément Herrmann: Tegmo não é um retratista no sentido clássico, mas seus fragmentos de espelho refletem o rosto fragmentado de quem olha; é outra maneira de abordar o retrato. Do meu lado, pinto rostos que se desintegram aos poucos dependendo do ângulo de observação, por meio da anamorfose.
Tegmo: O que me interessa no trabalho do Clément é a intensidade que ele dá aos seus rostos. Meus espelhos, por sua vez, remetem a uma introspecção profunda. Entre os fragmentos pintados dele e minhas facetas refletivas, nossas abordagens se encontram, se fundem: reflexo e pintura compondo um rosto híbrido…
Clément Herrmann: … uma imagem dupla onde dois rostos coexistem em uma única obra.
Tegmo: Duas linguagens diferentes, mas um mesmo eixo: a fragmentação do rosto e a maneira como ela envolve nosso olhar, ao mesmo tempo sobre nós mesmos, sobre o outro e sobre o que nos rodeia.
A colaboração de vocês é de longo prazo?
Tegmo: Sim, a colaboração continua, embora com certeza vamos querer explorar outras direções daqui a um ou dois anos. Por enquanto, criamos uma obra grande, uma instalação para a Poste du Louvre e uma pequena série para Les Bombasphères.
Clément Herrmann: Vamos apresentar duas novas obras na feira District13 em Drouot com a Goldshteyn Saatort Gallery. E já estamos pensando em outras possibilidades, principalmente em esculturas onde nossas montagens respectivas — as estruturas de espelhos do Tegmo e meus fragmentos de plástico rígido vindos de objetos recuperados na rua — possam se unir.
Tegmo: Assim, criamos peças específicas para cada evento. A colaboração já dura cerca de seis meses, e vamos ver como ela evolui.
Como vocês encararam essa colaboração?
Tegmo: De forma muito tranquila. Isso se deve, sem dúvida, ao fato de que cada um já conhecia o trabalho do outro e seu universo.
Clément Herrmann: É verdade, de forma bastante natural.
Tegmo: Eu trabalho com dois tipos de montagem: “plissado” e “sobreposto”, e foi a sobreposição que funcionou melhor com os nossos dois universos.
Clément Herrmann: É verdade, ela chama mais a atenção, multiplica os reflexos fragmentados…
Tegmo: … e se aproxima do trabalho em camadas sucessivas do Clément.
Como funciona o seu processo de criação a quatro mãos?
Tegmo: Tudo começa com um desenho que fazemos juntos numa placa de madeira. Lá definimos a forma geral – arredondada em alguns pontos, mais angular em outros… – para encontrar a simetria certa, o equilíbrio certo. Então, eu recorto a tábua para visualizar mentalmente a disposição das facetas, pois esse trabalho em 2D não consegue captar nem as inclinações dos espelhos nem os reflexos. Em seguida, recorto os espelhos com uma lixa de tungstênio, monto as facetas, soldo… evitando linhas retas, já que um rosto é naturalmente assimétrico. A obra precisa então secar por uns dez dias, o tempo que os óleos e ácidos usados na soldagem levam para se estabilizar. Depois que a montagem fica pronta, passo o bastão para o Clément.
Clément Herrmann: Começo procurando uma harmonia entre as facetas que vão ficar em branco e aquelas que vou pintar. Dependendo do formato, escolho um rosto – de frente, de três quartos… – e faço um esboço que sobreponho à foto da peça exibida no iPad, para organizar as áreas a serem pintadas. Assim que a composição estiver definida, mascarei as facetas a serem preservadas e aplicarei a base nas demais. Primeiro aplico uma camada de spray para uniformizar a base, depois começo a trabalhar com tinta acrílica e pincel. Em seguida, pulverizo camadas finas de spray para criar esse efeito vaporoso e homogeneizar o conjunto, antes de voltar ao pincel para os detalhes. É um vaivém constante entre acrílico e spray.
Tegmo: Só pra contar, quando entreguei a primeira peça pro Clément, lembrei pra ele que eu não gostava de figurativo. Fiz um pouquinho de pressão nele [risos]. Mas também disse que gostava do trabalho dele e que confiava nele.
Clément Herrmann: E o resultado é um figurativo que se transforma: preso nos fragmentos do espelho, o retrato se decompõe e se reconfigura de acordo com a posição de quem olha. Isso dá origem a obras complexas, nas quais a gente passa um tempo.
Tegmo: Trabalhamos com confiança: eu componho os volumes; Clément aplica as diferentes camadas de tinta que dialogam com a superfície bruta do espelho.
Como vocês abordam a apresentação das suas peças?
Tegmo: Primeiro, ficamos em dúvida entre deixar as peças soltas – como costumo fazer – ou emoldurá-las. No fim, decidimos emoldurar os formatos pequenos.
Clément Herrmann: Entre os espelhos que refletem a luz e a moldura preta que acentua ainda mais essa impressão, a moldura dá às peças um ar de preciosidade, como uma joia em seu estojo.
Tegmo: Os formatos grandes, por outro lado, ficam melhores sem moldura, livres e arejados.
Qual é o significado dessa colaboração para vocês?
Tegmo: Para nós, o mais importante é curtir a criação… e nos divertimos muito criando cada obra, sem saber como seriam recebidas… No fim das contas, foram muito bem recebidas!
Clément Herrmann: Somos espíritos livres, e essa colaboração rolou nesse mesmo espírito: sem pressão, sem certezas, mas com muita vontade.
O que você aprendeu com essa colaboração?
Clément Herrmann: Descobri o espelho como suporte, um material surpreendente, principalmente quando aplicado ao retrato. Sem a proposta da Tegmo, não tenho certeza se teria me interessado por isso. Essa colaboração está mudando a maneira como vejo a fragmentação de um rosto, mesmo que ainda não tenha o distanciamento necessário para avaliar todas as consequências.
Tegmo: Tive muito prazer em pegar os pincéis de novo para fazer os retoques, algo que não fazia há muito tempo.
Confere o
Tegmo: tegmo.fr
Instagram: @tegmo_
Clément Herrmann: clementherrmann.com
Instagram: @clement.herrmann







